Se mentir fosse o pior castigo
Vomito com minhas palavras a vida
Em minhas poucas virtudes forço a vida
Mas sou sono
E em meus sonhos não existo
E se existisse a morte
Morta seria.
Poucas e definitivas
Da guerra surgisse a solução,
De meu coração não se faz a paciência
Para se brincar de devoção
Não nego a perfeição dos versos cantados
A celebração de uma união
Mas quanto a buscar o amor
Prefiro me guardar pra solidão
Liberdade é o prato cheio na barriga do faminto
Queimando o rosto que um dia fora todo
E hoje mal é nada
E pouco é mal
E os restos dos resquícios dos sorrisos que ninguém vê
Se perderam no mar que forçou a esquecer
Mergulhada na ebulição das noite nuas, dos meteoros e das falsas luas
Subiu na estrela que ninguém mais viu
E foi longe ao imprevisto, ao impossível ao irreprimível ser
Tornou-se a explosão dos astros, dos abraços esquecidos e dos amores fingidos
Tornou-se pura e finalmente sua
Sumiu sem nada ver
Sem ter visto
Sem ser vista
Ninguém viu
Ela ser
Sweet Wings
In the remaining pieces of our ilusion
For I’ve found the freedom’s dope
And your joy became misused
I ain’t the reason’s alibi
Nor gonna let the youth go by
For I’ve found my chains to be your eyes
And I ain’t the prisioner of love’s lies
I’m naked in joy’s histeria
Free in lonely skies
Deep down in rainbow’s euphoria
I found my wings to fly
And I’ll go far to oblivion’s sea
For past is no longer me
Noite do Impostor
Mas com aqueles de sincera paixão
Se fosse com os de lascivo desejo,
Eu talvez encontrasse o perdão
Como respeitar o reflexo
Quando nele só enxergo a solidão?
Não busco ou admito outros versos,
Estes não rimam minha pretensão
Sou o egoísmo solitário e virgem
O libertino e jovem desamor
Sou a máscara da vertigem
Sou a imposta dor
Olho de Shiva
Dá-me um prato cheio recheado de lixo e lhe digo que tenho fome mas não de vício
Tenho fome.
Talvez, talvez devesse comer outro intragável mundo
Mas já me cansei de ganhar o peso de todos os homens
Já cansei de sentir em minha carne seus fungos
Tenho fome, tenho tanta fome
Mas em meu ventre sinto tantos corpos…
Sinto-me grávida de tudo
Quero parir todos esses ossos
De incontáveis anseios e vícios fecundos
E ainda, tenho fome
Talvez, talvez se eu enfiasse meus dedos em minha garganta seca
Golfasse esses devaneios infestados de vermes
Talvez assim minha mortal enxaqueca
Pudesse escorrer de meus lábios débeis
Tenho fome, tenho fome!
Em minhas veias corre a tristeza ébria
E a tusso e a cuspo junto de meu fôlego vencido
Meu estômago lota-se de princípios velhos
De filosofias vãs e intelecto fingido
Tenho fome…
De morte já me saciei e a vida que traguei
Não satisfez nem corpo ou (pobre) alma
Do amor provei mas minha fome é de rei
E corpos são a mão do diabo que afaga
E ele não corrompe minha fome
Que não é de hoje ou de anteontem
É a anorexia eterna dos sentidos
É o vazio físico das convenções que me consomem
E me comem, e comem meus ídolos
E comem minha vida até suicidarem-me de fome. Fome.
É a fome que tenho
Por nada ter
Sonhos
Andava Anita de corpo curvado
No peito as mazelas do sonho furtado…
Como queria eu sua dor furtar
E virar filho de rei para em seu olhar reinar
Aqueles olhos de calma castanha
De serenidade subversiva, de terra abatida
De brasa contida, de cândida manha
De paixão ressentida em minha cama
O nariz de feitio divino
Aspirava meu coração desmazelado
Guardava em seus pêlos meninos
Meu suor de amante agoniado
Sobre seus lábios não me atrevo discursar
As rimas seriam ofensas, os versos chagas
Pois nunca a carne fora o próprio amar
A não ser naquela rubra fenda de mágoas
Em seu pescoço o odor da solidão
Em seus seios o berço de meus beijos
Em seu ventre minha lânguida ilusão
Em suas pernas meus roxos anseios
E em seu espancado coração
O vazio transbordando minha ausência
O vicioso afago de meus perdões
E de minha louvável clemência
Pois vivia Anita de suplícios
De pecados urrados em silêncio
De orgias, banquetes e vícios
Toda a luxúria em sonhos imensos
E eu a flagrava à noite a dormir
Com o perfume úmido do desejo
Seu corpo em espasmos a sorrir
Seus olhos brilhando em lampejos
E eu morria a cada luar desgraçado
Assistia à fuga do Sol em depressão
Rezava em canto desatinado
Para que corresse o dia sem escuridão
Até que conformado com minha mortalidade
Cedi a meus anseios humanos
Esqueci-me de nossa santíssima divindade
E entreguei-me aos torpes e profanos
Não fossem os venenos da fraqueza
Da cachaça singela, da injeção e da erva
Ainda seria eu membro notório da nobreza
Eu, filho de rei e amante da donzela
Hoje a sete palmos do chão,
Mas para sempre viva em meu coração
Sonhos
Andava Anita de corpo curvado
No peito as mazelas do sonho furtado…
Como queria eu sua dor furtar
E virar filho de rei para em seu olhar reinar
Aqueles olhos de calma castanha
De serenidade subversiva, de terra abatida
De brasa contida, de cândida manha
De paixão ressentida em minha cama
O nariz de feitio divino
Aspirava meu coração desmazelado
Guardava em seus pêlos meninos
Meu suor de amante agoniado
Sobre seus lábios não me atrevo discursar
As rimas seriam ofensas, os versos chagas
Pois nunca a carne fora o próprio amar
A não ser naquela rubra fenda de mágoas
Em seu pescoço o odor da solidão
Em seus seios o berço de meus beijos
Em seu ventre minha lânguida ilusão
Em suas pernas meus roxos anseios
E em seu espancado coração
O vazio transbordando minha ausência
O vicioso afago de meus perdões
E de minha louvável clemência
Pois vivia Anita de suplícios
De pecados urrados em silêncio
De orgias, banquetes e vícios
Toda a luxúria em sonhos imensos
E eu a flagrava à noite a dormir
Com o perfume úmido do desejo
Seu corpo em espasmos a sorrir
Seus olhos brilhando em lampejos
E eu morria a cada luar desgraçado
Assistia à fuga do Sol em depressão
Rezava em canto desatinado
Para que corresse o dia sem escuridão
Até que conformado com minha mortalidade
Cedi a meus anseios humanos
Esqueci-me de nossa santíssima divindade
E entreguei-me aos torpes e profanos
Não fossem os venenos da fraqueza
Da cachaça singela, da injeção e da erva
Ainda seria eu membro notório da nobreza
Eu, filho de rei e amante da donzela
Hoje a sete palmos do chão,
Mas para sempre viva em meu coração
Oração ao esquecimento
Ave Solidão, tristeza imaculada
O desespero é convosco
Maldita sois vossa presença entre as noites
e bendito é o fruto de vosso ventre, as lágrimas
Santa Solidão, Mãe da beleza
Enxugai o pecado de meu corpo,
Agora e na hora de minha redenção,
Torturai cada veia de meu corpo,
Secai o sangue de meu coração
Agora e na hora me minha sorte
Maldita seja sua voz nesta noite
Agora que o véu de estrelas esconde o luar
Exorcizai os erros em mim
Ave Solidão, cinza do passado
Apagai de mim o tempo,
Cicatriz lasciva da paixão
Apagai as linhas de aflição,
Talhadas em meu corpo e respeito
Limpai as lágrimas perversas
Que salgam meu corpo com pecado
E fazem de meu sorriso
Cicatriz do amor dilacerado, amém
Oração ao esquecimento
O desespero é convosco
Maldita sois vossa presença entre as noites
e bendito é o fruto de vosso ventre, as lágrimas
Enxugai o pecado de meu corpo,
Agora e na hora de minha redenção,
Secai o sangue de meu coração
Agora e na hora de minha sorte
Agora que o véu de estrelas esconde o luar
Exorcizai os erros em mim
Apagai de mim o tempo,
Cicatriz lasciva da paixão
Talhadas em meu corpo e respeito
Limpai as lágrimas perversas
Que salgam meu corpo com pecado
E fazem de meu sorriso
Cicatriz do amor dilacerado, amém
Convite de Tristão
Fizera de minha mente a fonte do ódio perverso
Fizera de meus olhos cascatas de amor confesso
Estriparam meu corpo quente
Levaram à garganta as ilusões amadas
E assassinaram meus sonhos complacentes
Com a bravura do impossível
Levaram-me a injustamente sentir
O que cria ser impossível
Verteram em meus lábios a peçonha da paixão
E convenceram minha alma medrosa
A morrer pela própria mão
É a única medida terna
De garantir a ilustre certeza
De que nossas vidas serão eternas
Convite de Tristão
Pois veja só o quanto, por me amar
Fizera de minha mente a fonte do ódio perverso
Fizera de meus olhos cascatas de amor confesso
As palavras, assim singelas e educadas,
Estriparam meu corpo quente
Levaram à garganta as ilusões amadas
E assassinaram meus sonhos complacentes
Emudeceram meu rir,
Com a bravura do impossível
Levaram-me a injustamente sentir
O que cria ser impossível
Acenderam em meu peito a brasa esperançosa,
Verteram em meus lábios a peçonha da paixão
E convenceram minha alma medrosa
A morrer pela própria mão
Pois morrer…por lúgubre que seja
É a única medida terna
De garantir a ilustre certeza
De que nossas vidas serão eternas
Renego o amor
São nessas horas de solidão forçada
E de desilusão contente
Que enxergo em mim uma alma aguada
Escorrendo pelo vício imprudente
Vício este pela já manjada tristeza
Pelo salgado das lágrimas de estimação
Pela busca da certeza
De que o buraco de meu coração
É preenchido pelo torpe tumor da crueza
Renego o amor
São nessas horas de solidão forçada
Ócio aflito
Ócio aflito
Morrem na garganta as palavras profícuas
As únicas que para algo serviriam
Em seu lugar, o golfo de rimas oblíquas
Quem diria que estas não me alimentariam?
Agora ando faminta, minha mente ossuda em contrição
Vertendo o veneno da ilusão
Dissolvendo-me as idéias e emudecendo meus sentidos
Quem diria que não são sinceros meus sorrisos?
Estes, espelhos da imensidão oca de meu eu pensante
Consomem meu saber
Pois esquecendo-me do intelecto sufocante
Posso com a ignorância aprender a viver
Les plaintes du condamnè
Sedar minha mente aflita
Embriagar os remorsos ateus
E emudecer minhas conquistas
Desbravar minha realidade adormecida
Fazer desses urros incertos
A música da razão iludida
Queria meu corpo ceder à terra do passado
Enterrar-se num suspiro sucumbido
E retornar ao repouso furtado
Minha carne se alimenta
Como quer meu eu se esquecer!
Se perder
Se render à solidão mórbida dos suicidas,
Sou lágrimas arrependidas
Les plaintes du condamnè
Como queriam os erros meus
Sedar minha mente aflita
Embriagar os remorsos ateus
E emudecer minhas conquistas
Como queriam meus sonhos despertos
Desbravar minha realidade adormecida
Fazer desses urros incertos
A música da razão iludida
E frente à face do inimigo destemido
Queria meu corpo ceder à terra do passado
Enterrar-se num suspiro sucumbido
E retornar ao repouso furtado
E agora que de desilusões e misérias
Minha carne se alimenta
Como quer meu eu se esquecer!
Se perder
Se render à solidão mórbida dos suicidas,
Pois já não sou carne,
Sou lágrimas arrependidas
Tribunal dos perdões
Certa noite, caminhando por entre os sonhos
Encontrei, com o destino em minhas mãos,
Maria das flores por entre urubus risonhos
E homens filhos do pecado de Adão
Maria, jogada no orvalho de erros passados
Úmidos de arrependimento
Regados pelo mar de seus olhos inchados
Decididos a viver em improvisado convento
Sobressaltou-se com os balbúcios de meus lábios
Que indagavam a razão para tão lastimável culpa
Pois ainda que estivesse eu em tão bisonha ilusão
Tamanho desalento não seria possível nunca
Então, como se de seu olhar escorresse a baba do diabo
De seus pulsos jorrasse labaredas do inferno
E do sangue de seu coração surgisse o pecado
Maria rogou pelo perdão eterno
Confessou, com lânguidas palavras rasgadas
Que em posição de Eva e engano de Madalena
Cedera a quimeras passadas
Embriagada de ilusão e loucura serena
E entregou-se às tentações de lascivas lembranças
Enterrou-se em cova de erros e submissão
Aceitou, quando nua, louca e falsa esperança
Agonizou ao toque de bocas cruas de paixão
E então lágrimas brotaram, hemorrágicas e vazias
E sua boca urrou com desbotada virgindade
Implorando para que bebesse eu suas agonias
Para que lhe devolvesse a insônia e a castidade
Queria que os pesadelos não mais lhe corroessem a sanidade
Pois quando cria ter se livrado enfim do desespero
Percebera que ela, em melancólica realidade
Era, quem diria, meu rosto mirando o espelho
Bolero da vida sem glória
De cordas e tons fez-se um homem
Escala de dó
em meus lábios dormiu a noite
e assim que o Sol, tímido e desmazelado,
inflamando as estrelas sem cuidado,
furtou a vida da Lua minguada
meu céu livrou-se dos perdidos sonhos
em antropofágica selvageria
os raios fizeram de meu paraíso
cinzas de exorbitante alegria
o que antes fora meu reinado da perfeição
tornou-se a verdade, minha aflição
que tortos caminhos me trouxeram!
minha eternidade fora pulverizada
sem mínimo esmero!
maldita seja a luz desalmada
por forçar meus olhos à realidade
fazer de minha ilusão circuncidada
apenas vaga lembrança
do que em meu coração era liberdade
Marguerite aux camélias
Marguerite, prise d´un accés de toux, tombe en rentrant dans sa chambre. Assise, elle regarde le miroir.
- Ah! Quels malheurs me sont reservés! Qui aurait di que la pâleur m´aurait fait pleurer…
Armand, après quelques secondes d´hésitation, rentre.
-Madame ! Pourquoi êtes-vous par terre?
-Monsieur Armand! Ne vous inquietez pas, je suis juste tombée…pourriez-vous m´aider?
(Un temps) Qu´est-ce que vous avez dans les mains?
-Eh, bien…je vous ai apporté des fleurs.
-Merci, c´est bien gentil…mais je n´aime pas les camélias, Armand.
-Pardonnez-moi….
-C´est rien, ne vous inquietez pas de ça. Mais alors, quel est la raison de cette agréable visite?
-Je voulais juste savoir si vous allez mieux.
-Bon, je ne vais pas mieux, mais je ne vai pas plus mal non plus. D´ailleurs, je commence à m´habituer.
-A vous habituer? Mon Dieu, madame, comment pourriez-vous vous habituer à l´idée de mourir? Vous vous faites du mal! Marguerite, laissez-moi vous racompagner chez vous, vous aurez au moins un moment de paix. Laissez-moi vous soigner!
-Mon cher, ne voyez vous que je suis en paix? C´est grâce au péché, au plaisir et à la vanité que je suis encore dans le monde des vivants. Je suis déjà condamnée, quand je regarde dans le miroir, je vois la mort en sourriant. Comment pourriez-vous changer mon destin? Changer ce qui est déjà fait?
-Par l´amour que je vous porte!
-L´amour?! Armand, cela n´existe même pas dans ma vie.
-Vous vous trompez, Marguerite, car il est plus proche que ce que vous imaginez…
-Si vous parlez de tous les hommes qui on dit “je t´aime” dans mon lit, aucun n´était sincère!
-Non, madame, je parle de moi! Je parle de l´amour incontrôlable que je ressent pour vous! De toutes les nuits de veille où j´ai pensé à vous, de tous le jours où je suivais votre existence. Voilá maintenant deux ans, deux ans que j´ai cette passion encarcerée dans mon coeur. Depuis que je vous ai vue pour la prémièr fois, tout ma pensée fut remplie de vous, de vos yeux, de votre beauté, de votre parfum, de vos cheveaux, de votre sourrire…
-Vous m´aimez…Pardonnez-moi d´avoir oublié ce que signifie ce mot mais…mes sentiments se limitent au plaisir…je ne comprend pas comment pouvez-vous m´aimer, Armand, je suis même sûr que vous ne saviez pas ce que cela veut dire….De toute façon, à quoi ça sert l´amour quand la mort est si proche? Non, ne me répondez pas, Armand, car je sais déjà la réponse que vou me donnerez…non! L´amour ne pourra pas me soutenir, car je ne sais pas aimer.
-Je peut donc vous l´enseigner!
-Vous n´avez pas compris, mon cher, je ne veut pas aimer.
-Même se je vous promis de vous être dévoué, de corps et âme?
-Ah, et porquoi voulez vous ça maintenat, dans mes derniers jours? Pourquoi n´avez-vous jamais promis ce dévouement avant, quand j´avais encore l´espoir de vivre? Vous n´êtes jamais monté ici durant ces deux ans…pourquoi?
-Je ne vous conaissais pas…
-Et croyez vous que vous me connaissez maintenat? Alors que je suis si prête a partir? Alors que vous m´avez parlé pendant ce temps la? Ces dix minutes?
-Je crois que je peut comencer à vous connaître, mais avant je n´avais pas assez de courage.
-Hélàs, vou n´aviez pas le courage de monter dans la chambre d´une courtisane? A présent qu´elle est devenue malade, vous avez trouvé ce courage?
-Non! Ce n´est pas cela…
-Alors, qu´est que c´est? Pensez-vous qu´une prostituée malade est plus sentimentale?
-Marguerite! Je n´ai jamais dit cela!
-Mais, peut-être, l´avez-vous pensé?
-Arrêtez cette torture, je vous aime, comment pourrais-je penser cela de vous?
-Ainsi vous êtes vraiment amoureux de moi!?
-Je ne sais pas si je dois vous le dire aujourd´hui que…
-Ah, Armand…il serait mieux, pour votre coeur, de ne le dire jamais.
12/03/2007
Se de matéria fosse tecida minha consciência, nada seria de minha alma senão inútil excelência
Se de súbito meus sonhos partissem
Minhas mãos se cansassem
Minha mente cessasse
E meus olhos dormissem
Transitaria minha alma pelo almejado fim?
Se assistisse minhas mãos desfazendo-se em pó,
Meu corpo libertando-se de mim,
Eu não mais em minha companhia só,
Não seriam meus extintos sorrisos sinceros enfim?
Se são meus arrependimentos e pecados
A razão para as incontáveis e infinitas noites sem lua,
Se é a mortalidade atada à convenção
A causa de minha lamúria,
Que venha o fim acalentar meus medos
Sussurrar em minha consciência as promessas do limbo
Contar em meu colo a história dos desejos
Que em terra são a cova da paz
E no esquecimento a liberdade que almejo…
Tudo de profano com minha carne secaria,
A vontade encarniçada, o pavor da idade
A paixão visceral, o remorso letal…
A vida na morte encontraria
Toda a humanidade em sua desmedida humanidade
Roendo a alma até o osso da contrição
Deveria na crua indiferença ser enterrada
Para perecer em infindável quietação
No limbo de memórias apagadas
No paraíso da despretensão
Quem me dera desgarrar-me das obrigações
Partir-me oca, livre dessas vontades
Para no ermo preencher-me de saudades
Saudades das assassinadas paixões
Dia de Dora
Desperta, vira a hora
Roda na cama e força a fantasia
Ama, morre e chora
Acorda com bizarra azia
Cai, levanta e demora
Machuca os ossos e lava a alma
Se olha, desgosta e melhora
Adoça o café e bebe sem calma
Se molha, acorda o corpo
Seca o sujo da memória
Se veste, estranha e olha torto
Abre a porta e sai como escória
Anda, espera sem pressa
Entra com gente e senta sozinha
Desce, olha e atravessa
Finge breve ser rainha
Senta, come e não sente
Olha com amor e fala inibida
Volta, trabalha e mente
Levanta, parte sem vida
Anda, sobe com lágrimas
Gira a chave e entra morta
Deita, se cobre com lástimas
Divaga, adormece torta
Não desperta, não há hora
Imóvel na cama em fantasia
Não ama, morre e não chora
Parte com fúnebre alegria
Acorda, ri da hora
Salta da cama com euforia
Pensa, lembra de Dora
Lê sua morte no jornal do dia
Ode ao espaço geográfico
São as mais belas mãos, desfalecidas e esquecidas
Fim irrevogável de um corpo que não havia de ter fim,
Ah, se fossem as mais justas vontades atendidas
Não estariam descoradas ou distantes de mim!
Mãos celestiais, cândidas e imorais
Em toda sua ingenuidade e complacência
Amando com o roçar suave de carne na carne
Servindo como o mais gélido gelo no coração que arde
E a mais rubra brasa no amor sem imprudência
Ah, por que sórdidos motivos as furtaram de mim?!
Desentrelaçadas nossas mãos,
Os corpos que as seguem movem-se em vão
Vagueiam na saudade e, oh! esquecem-se com a idade
Da solene promessa do amor sem fim
Benditos sejam os sonhos
Por permitirem o encontro das mãos amantes
Para acordarem seus lábios risonhos
Ainda que permaneçam seus corpos distantes
Benditos sejam os sonhos
Pois neles não há distância ou mar
Benditos sejam seus olhos castanhos
Por eles esqueço-me de acordar
Com sua mão em meu leito, o amor está feito
E há de voltar
Estado de graça
Edito minhas mentiras
Minhas veias embriagadas discursam melhor do que as palavras
Quando em sonhos almejo teu amor
Ainda que sabendo que nada guardas além de rancor
Imagino nossos corações se entregando
Não apenas em corpos mas em prantos
Vejo que meus suplícios não sabes perdoar
Ainda que queira eu a ti tudo entregar
Foges de mim como se fosses te devorar
E ris de minhas palavras a divagar
Ainda que sejam minhas palavras embriagadas
Deverias tu considerar minha cilada
Pois veja só, não te amo
Mas quero de ti tudo que não queres entregar
E entendo enfim a palavra amar
É querer
E cobiçar
Sem saber
Que te amar
É apenas não te ter
Para ti viver
Sem saber
Que querer é não poder
Que rasguem minha carne, minha vida não será em vão
Estranho silêncio o dessas almas rompidas
Clamando em sonhos o que calam em vida
Funesto viver sem palavras para dar…
Injusta penitência a de oferecer para cobrar
Miserável destino o dessas almas sem Poder
Pois sem Poder não passam de sentidos calados do saber
Pobres diabos, desamparados e injustiçados
Que desventura lhes dar o sorrir sem ensiná-los a sentir!
Pois então urrem os mudos suas lástimas e lamúrias,
Enxerguem os cegos o que nosso olhar já esqueceu
Cantem os poetas a melancolia da rotina,
Morram os já falecidos de injustiça doentia
E renasçam os heróis dos sonhos meus
Quanto a mim, deixo lábios e corpo calados
Pois não hei de conformar-me com os atos
Dos torpes e injustos e ingratos…
Proclamarei a liberdade da igualdade,
Calarei-me com os mudos
Com os cegos não verei
Juntarei-me aos surdos
E da vida me despirei
Que é na simplicidade que a alma se eleva
E na cobiça que o sorrir se enterra
Serei a vida nua de vida
Serei o silêncio da revolução inibida
Serei o que foi e não mais será
Serei a razão de amar
Serei a razão
Serei o não
Serei, não
Não serei
E assim será
Quando os amantes se entregam à insanidade do óbvio e se esquecem da realidade do amor
Dos pregos em minhas mãos encravados, restaram rubras chagas
Supuram meus pés com os vestígios de injusta penitência
Nos ossos as cicatrizes da cruz de espinho em que me meteram
De meus olhos deita o sangue do tormento
Que incineraram-me em público linchamento
Que nada em mim viram além de carcaça oca sem moral ou coração
Que ainda que aqui em meu peito não caiba nada além de paixão
Que mesmo predestinada seja minha alma a explodir de sentimento
De vida pulsante só encontraram atrevimento
Nos meus bramidos só ouviram o que perderam
Sussurrando em seus olhos chorei pela ausência
Dos seus olhos cegos ao amor, aquele que dei-lhe quando me crucificavas
Que preferiu seu coração acreditar
Que quando a todos me entreguei
Não quis eu te amar
E olhe agora o que me tornei
Seu animal que desacato
Seu passado perdido
Seu erro de estúpido coração pacato
Meu coração rendido,
Para sempre dilacerado
Para sempre, olvido
E olhe agora o que me tornei:
A mais oca ilusão
E olhe agora o que tornei:
A peçonha da solidão
Agradeço-lhe por ter sido meu rei
Sem fazer de mim rainha
Não mais me darei
Agora sou mais que minha
Sou todos os gritos do mundo
Guardados em mim sozinha
Arranca da cama os lençóis que sem Sol não sei dormir
Nestes benditos dias de desdita morte
Quando o tempo corrido se cansa da pressa
Quando conta o Sol, em elucidação improvisada
A razão desse forjado sofrer
Penso eu que nas terríveis horas de solitária escuridão
Minhas lágrimas de dor não passam de ingênuo terror
Terror não da ilusão,
Essa apenas afago da decepção,
Terror dos quiméricos, dos homéricos Sonhos
Da fantasia de fanáticas noites do passado
Aquelas, as conturbadas e desgraçadas
As vertiginosas e lascivas, as reais e as fingidas
Penso eu que não sabia antes sonhar,
Sabia saber…
E agora, sem controle da razão, acordo banhada em suor
A garganta flamejante seca de gritos, ansiosa por morrer
Já tornei de todos os vinhos para enfeitiçar o sono
Queimei-me com quinhentos cafés
Angustiei por dez noites sem cerrar o olho
Chorei as dores em dez cabarés
E hoje sou cinzas da libertinagem,
Zumbi clandestino na realidade
Vago com os olhos semi-cerrados, sem coragem
De dizer adeus a mocidade
E agora que bendita a sorte e desdita a poesia
Louvo o tempo por sentar e me esperar
Beijo este chão de fartas alegrias
E vivo dia e noite a sorrir e a sambar
"Curumim, chama Cunhãtã que eu vou contar"
Dá-me tinta de urucum
Para pintar corpo meu em teu
Dá-me o calor de teu coração nu
Para amolar o que embruteceu
Dança com meu corpo o amor
Me gira e me derruba com paixão
Derrama em meus olhos o ardor
Engole de um gole minha solidão
Ainda que não queira eu o teu
Ainda que fujam de ti meus olhos
Ainda que meu eu, que emudeceu
Não cante mais teus sonhos
Ainda que meu desafinado canto minta
Teus olhos têm o dom de ouvir
E tu de ler minha alma em tinta
E mesmo assim vir
Sabido isso, faça-me um favor?
Ensina-me a graça do sorrir,
Ensina-me a sorrir de amor?
Um brinde à vida
Ah, mas que bela boemia!
Enquanto respirar,
Embebedarei-me nessa linda sinfonia
Quando cantam os lábios da Morte antecipada
De repente, foi fatal
De súbito foi certeza
De um pulo meu peito morreu
E encarei a morte com surpresa
E em todos os olhos eu a vi
Esgueirando-se por entre os corpos
Rindo naquelas bocas tortas,
Eu a vi sorrir
Ah, e aquele meu peito falecido
Sufocado e esmagado e carcomido
Sofria ainda de certeza
Mas não de luto
Sofria ainda pela sanidade
Mas não de medo
Sofria e chorava com meus lábios
Sofria de solidão
Sofria pelo medo de estar só
Sofria pelo medo de meu coração
Que louco e vazio e em pó
Sofria de pavor,
Pavor do não
Ateliê de Idiotas
Pode ser que seja eu
Mas quanto mais enxergo
Mais vejo o breu
Quanto mais reparo
Na vida dos outros
Mais vejo desamparo,
Gritos surdos e roucos
Da falecida Utopia
Celebro aqui a Miopia
Afago da solidão
Olha lá, que pode sempre acontecer
De o amor
Nas costas do silêncio se esconder
De nada adiantam as flores, suas pétalas me desfloram
Não seja tão cego, amor, não condene meus esquivos
Pois fujo não por orgulho retido
Mas por temer que sua ânsia de ardor
Faça padecer de desgosto meu coração rendido,
E afogar em desventura meus olhos de dor
Pois ao queimarem meu peito as lembranças
De minha pele sendo a sua
De seus olhos, com paixão contida e nua
Amando-me com sincera esperança,
Ao queimarem meu peito, amor
Revejo em meus sonhos suas costas partindo
Estas ensinando-me a graciosidade da dor
E o encanto do amor fingido
Ao sentir meu corpo seu cheiro,
Quedava logo nua de medo
Ao tocarem meus lábios seu sorriso,
Ria meu coração em histérico regozijo
E quando confessavam nossos olhos!
Ah, nessas horas eu era mais que sua
Eu era sua carne, seus poros
Sua alma, sua mente, seu corpo
E minha vida finalmente nua
E minha vida subitamente crua
Quando enxerguei em seu olhar lascivo
Os propósitos de perverso amante
E as mentiras de ator festivo
Que defloraram minha ilusão viciante
Então não ouse condenar-me!
Depois de travestir sua intenção
Não ouse tocar-me!
Negarei sua libidinosa paixão
Pois veja, eu sou amor
E não é de carne que se alimenta o coração
Os olhos dos outros
Não chore, menina bonita
Se o mundo a quer
Partindo para virar guerreira,
Calçar os pés
Caindo para voltar à beira
Sem mar sequer
Tentando engolir areia
Para virar maré
Ah, linda mulher da vida
Envolve-te em ramos
E entregue sua alma servida
Aos cegos e ciganos
Ah, garota de todos os poucos
De todos os que não te enxergam
Palavra daqueles outros
E dos muitos que te levam
Lave com suas lágrimas o corpo
Molhe seu coração
Ah, velho corpo novo
Seco de solidão
Menina dos olhos pro mundo
Da mente e idéia adunca
Criança de sonho fecundo
Que essa sua vida não acabe nunca
Obscena conveniência
Eu perco os papéis da poesia
Eu esqueço a porta aberta
Eu perco as razões da alegria
Eu morro e morro desperta
Meus passos perdem o chão
Minhas palavras perdem a paixão
Minha mão calejada e calada
Não desenha mais a ilusão
Eu ganho acalentos da azia
Eu encontro olhos de razão
Eu ganho razões pra agonia
Eu sujo meus pés de solidão
Eu deixo minha alma vazia,
Para seus passos encontrarem meu chão
Eu esqueço a porta aberta,
Você entra e entra sem poesia
Eu sorrio e meço a oferta
Eu entrego-me por cortesia
Sobre tudo o que viveram
Queria um jovem que contassem-lhe uma história
Sobre a alvorada no corpo de amados
Sobre o crepúsculo no coração da memória
E o entardecer na juventude dos soldados
E de tanto o menino insistir,
Um velho após o último copo a tornar
Desatou a como um mercador mentir
Forjando sua vida ali narrar
“Pois se bem o queres, meu rapaz
É bem que seus olhos não saibam chorar
Pois o que vazará de meus lábios
Já matou de ressequido um homem a amar
E se caso te cansar o coração,
Não te retires, não
Pois lhe digo que não é fugindo da miséria
Que arrancarás da carne a solidão
Pois agora que pedistes terá,
O conto que por tempos quis fosse passado
Mas este sempre me encovará
Sufocando-me com o veneno em mim encarcerado
Não! Não é este veneno que de meu olhar jorra,
É outro que minha alma enlevara há incontáveis anos atrás
(Digo incontáveis pois quando jovem não hão horas),
No tempo em que meu vinho era envergado com antraz
Se ainda não sabes sobre o que discurso, caro amigo
É porque nunca sentira no estômago o fogo da paixão
Queimando-lhe as veias e enviesando-lhe o destino
Nunca vira as paredes de teu quarto fecharem de aflição
Nunca tremera embriagando-se com a lembrança de sonhos
Nos que possuia em teu corpo quente o impossível, nos quais ouvia
Uma respiração úmida que sussurava-lhe palavras de desmedido amor
Que permaneciam na mente de forma a torturar-lhe com doentia
E faziam com que a realidade ocorresse com delirante esplendor
Ah, como eram singelos os passos de minha amada
Caminhando como que se pertencesse a esse mundo!
Minha meretriz que fora no pecado atada
Deixando-me da candura desnudo!
Como amei aquele perfume de ervas,
Como traguei aqueles olhos de mar!
Como entreguei-me a fúnebres trevas
Quando minha devoção ela decidiu estirpar
Não que fosse sua culpa! Não!
É que seu ofício não lhe permitia o olhar
E ao matar a lei e minha paixão encontrar
Fora a pobre forçada a entregar a alma à solidão
Pois sendo sua a função de pecar
Não pôde minha amada me ver
E frente ao inviável destino de não a ter
Entenda, não tive outra opção senão comigo a levar
Mas, veja, quando partíamos de volta ao paraíso,
Onde desfrutaríamos do celestial e do impossível,
Deu-se que na falta de maior juízo
Foi ela sem mim, deixando-me nesse inferno atingível
Compreenda-me, rapaz, e sinta com meu corpo
Imagina-te carregando em seus braços o amor
Deitando-se no chão frio teu maior sonho, morto
Diga-me, com verdade, não iria ti dar-lhe calor?
Pois ao vê-la ali na realidade, caída
Não lamberia o senhor também seu sangue?
Só para ter em teus órgãos a divindade escondida?
Imagine tu, lambendo seus salgados lábios,
Lambendo o vermelho em seus dedos,
Amando o que em carne tornaram-se medos
E tocando seus sonhos vários?
Se não te vês é porque nunca a vira
Pois se a visse a teria em carne e odor
Ah, claro! Por sua morte reinara em mim pura ira
Mas serena-me saber que resta em mim seu amor
Pois de sangue minhas mãos não foram lavadas,
Mantenho em meus poros seu seco vestígio
Todos os traços de antiga paixão dilacerada
E toda a perfeição de minha amada mantida com prestígio!
Sinta! Sinta em meus poros o odor dessa paixão!
Não te enojes do amor, meu caro!
Pois é ele minha toda e única razão
E veja bem, morrerei com parte de minha amada em minha mão!
Morrerei em carne, pois minha alma há muito se foi
Está lá com ela, veja, desfrutando de desmedida alegria
E logo a verei, e meus olhos outra vez viverão
Preencherei-me novamente com seu calor,
E viverei, viverei na morte com ressucitado esplendor!”
E sem compreender, fora o rapaz embora
Refletindo sobre o tanto que havia bebido
Temia, inconformado por perder a hora,
Que em casa fosse com um sermão recebido
Agora que o rancor impera o luto
Se são as mais belas cascatas de mar,
Sua fonte de dor vulgar, que salgam-lhe os poros
Se é pelo teu amor que sangra a garganta ao gritar,
Tema do tremor de teu peito, invisível a meus olhos
Se é pela culpa que vai declarar luto
Cobrir de negro a vergonha de seus atos
Se quando estes me consomem em absoluto
Cobrindo com lamúrias meu amor atado,
Poupe suas escassas gotas de contrição
Salve seus forjados olhares de amor perdido
Guarde com obscena humilhação
Sua depressão e seu discurso já ferido
E quando despencarem desmedidas cataratas de pena,
Assim que estas te banharem com água salgada,
Não me procure por não mais saber dormir
Pois quando de dor o coração bate pela falta
O sangue cessa de correr e os lábios se esquecem de sorrir
E sua esperança a vida mata
E quando acordar com aflição do sonho perdido
Assim que de pesadelos passar a viver
Não me peça de volta o encantamento desmedido
Pois este já não sei mais encenar ou ver
E já não posso perdoar sua calculada cilada
Quando a sangue frio comeu minha carne quente
Pois me esqueci do que era crente,
E de amor, meu amor, já não sei nada
Íris
É sensação pura e bruta
É antropofágica selvageria,
É a ânsia de tudo engolir
É a necessidade libidinosa de viver,
É o prazer indecifrável de sorrir
É o grito calado da liberdade,
É o retrato carnal da realidade
É a lamúria dos amantes,
É o riso dos loucos errantes
É o pulso vibrante dos poetas
É o sangue das almas inquietas
É vida escondida,
É a humanindade revelada
É os desejos reprimidos,
É a verdade sufocada,
É transcedência dos sentidos,
É a busca encontrada
É o encontro marcado com a razão
É mundo entalhado em tinta,
É o amor, é a paixão
É todo o corpo que levita
É fascínio com o nada
É existência de um em todos
É permanência de todos em um
É ser a vida ressucitada
É ser comum
É ser você
Com a diferença de saber ver
Com a diferença de pintar o sofrer
Com a diferença de realmente viver
Anatomia do Encontro
Sem a ternura de seu olhar
Meu coração recusa-se a bater
Meus pés negam o andar,
Minha alma cansa de viver
Depois que minhas mãos tocaram seu corpo,
Depois que minha vida espelhara a sua
Assim que em amor fui absorto
Assim que nossas mentes fizeram-se uma
Minha pele queima em desespero
Meu sangue corre sem vontade
Meu rosto se banha sem esmero
Meus olhos duplicam de idade
O tempo concentra-se na solidão,
Na falta, na dor e na incerteza
Congela-se em inesperada desilusão
E eterniza-se em experiente tristeza
E o tempo dilacera minhas entranhas
Enlouquece meus poros com lembranças,
Pois meu couro ainda sente suas manhas
Meus lábios estão ainda molhados de esperança
Como é carnívoro o amor!
Quando mastiga-me com sadismo
Quando despedaça meu peito com rancor
E devora-me os sorrisos
Como é justa a vingança!
Pois de tantas paixões que neguei,
Deu-se que quando enfim encontro a vida,
Esta afasta-me sem lei
E em silêncio não sou escolhida
Padecendo com o troco dos que fustiguei
É então justa minha miséria,
Justo o roubo do amor
Levastes de mim tudo o que tinha
E deixastes em mim o inédito vazio da dor
Só deixe-me, com o mínimo de compaixão,
Amar por último sua perfeição
Tocar seu último sorrir
Só para viver com gratidão
Por um dia poder rir,
Quando tive sua paixão
As ervas dos olhos
Agora que minha mente se encontra dentre as entranhas do mundo
Enquanto meus olhos rezam com o corpo
Agora que meu delírio queda mudo
Enquanto meu coração declara-se morto
Enquanto a vida passa-me em segredo
Agora que o espaço devora meus tímpanos
Meus pés afligem com medo
E nesse solo convertem-se, oblíquos
Ah, luz do amanhã ecoando em meus suspiros,
Ilusão coando minha esperança
Os ecos do passado contorcendo-se em risos
E o sangue se queimando com esperança
Ah, as veias jorrando em flamas
Os objetos sussurando-me mantras
Meus desejos em outras camas
Minhas intenções fingindo-se santas
Que venham da terra as brisas
Preencherem meu fôlego com cantos
Que venham as ciganas, as saídas!
Exorcizando meus medos humanos
Que venham os índios testarem-me com liberdade!
Suas cordas alucinarem meus membros
A raça animal da verdade
A verdade incondicional dos desatentos
Que venham os segredos obscuros
A loucura dos amantes,
As proezas e os infortúnios
Derramando em minha pele o calor dos errantes!
Mergulhe em mim, juventude!
Mostre-me os passos dos regojizos
Leve de mim o anseio das virtudes
Leve de mim a razão, os juízos!
Sou sua, meus cabelos, meus nomes, minha verdade
Entrego-lhe a culpa, o medo e a razão
Quero navegar atada à irresponsabilidade
Quero afundar afogada de paixão!
Ato 1 – L’arrivé
Dançando breve em minhas veias,
Furtando meus versos,
Meus sorrisos
Já dispersos
Rasgando-me e costurando-me,
Com linhas de um sonho
Aquecendo-me e torturando-me,
E partindo risonho
Tirando-me os versos e as certezas e as emoções
E cortando-me em talhos
E se embebedando de meus perdões
E atirando-me ao espelho,
Fazendo-me encarar os retalhos
Do que foi tomado inteiro
Do que nunca foi amado
Sou meu passado queimado,
Meu futuro exagerado,
Inexistente,
Inconsciente
Sou meus desejos confusos,
Minhas palavras forçadas,
Meu corpo quente,
Suas mãos cansadas
Sou nada
Sou o espelho
Sou o que você não quis
Sou o que dou
Apesar de não dar nada
Além de um ato de atriz
Perdão pelo atraso do amor
As calças largadas, as meias furadas, a dor apartada,
Os olhos nela
Moça singela,
Os olhos caídos, os braços subnutridos, os dentes ressentidos
A vista de terra, as pegadas da guerra, a vida sem terra
Os olhos nela,
Suor e sequela
O sol de sertão, as palavras na mão, a esperança na solidão
Ele a viu
E de súbito seu corpo parara
A boca da fome selara
As mãos lânguidas dançaram
A boca rachada estreara um sorriso
O menino de ossos chorava gotas secas de regojizo
Ele a seguiu
Os passos fracos na contramão
As palavras na mente em distorção
O peito ardendo com o toque da mão
Os lábios balbuciando com a falta da razão
Os grunhidos indecifráveis de paixão
E o golpe seco da desilusão
Ele fugiu
Os passos se quebrando
Os ossos falhando
A fome estourando
Os pêlos derretendo
O estômago se comendo
A alma adormecendo
As pálpebras caindo
Os ouvidos com um zumbido
Uns gritos expandindo
Uns dedos lhe furando
E a mão o acalentando
As unhas o cortando
E um beijo sem jeito
No rosto satisfeito
O amor mal-feito
Levando o corpo caído
Tombado, desligado
O corpo traído,
Morto de amado
Sobre suas costas
Que a ausência me despertou
Que o inviável me emudeceu
Que o úmido de meus cílios
Que não notastes meus suplícios
Que em prantos não me vistes
Que minha alma que despistes
Largou-se no tempo que vinha
Ficou no tempo de tua falsa companhia
Quando rasguei minha garganta com amor
Quando sem pena desviastes o ardor
Quando sem passos dançou
Quando sem braços me empurrou
Quando sem aviso me viu
Quando sem lábios me sorriu
Quando com receio me fugi
Quando sem anseios me entregou
As chaves do quarto em que dormia
As chaves de meu corpo que se abria
Agora que de nosso amor resta a ilusão
De nossa dança sobra a canção
Agora que teus olhos de minha mão escorrem
De meus braços teus passos fogem
Agora que depois de encontrado
Desvanece meu amor dilacerado
Agora que carecem-me os verbos
Solidários aos erros certos
Agora que quedo trinta antes do futuro
Com o destino preso no passado infortúnio
Que das ilusões nasçam outros tus
Outros milhares de teus corpos nus
Para morrer-me em deleite absoluto
Em teu arisco corpo que furto
E que dure agora e eternamente
Neste passado desgraçado e descrente
Em meu ventre rasgado e em teus lábios quentes
A insustentável mentira da gente
Que em sinfonia furtou minha negligente mente
Que abandonou-me em distância impertinente
E que, muito infelizmente,
É invariavelmente permanente
Breu
Meus olhos vendados
Surdos pelos sonhos
Quando subitamente acalentados
Por teus lábios risonhos
Meus olhos úmidos
Golpeados pelas lembranças
De romances súbitos
Da dança de crianças
Meus olhos quebrados
Pela certeza da solidão
Quando sedados pela dor
Pela saudade de seu coração
Meus olhos falecidos
Fatigados de tanto roer
Roer minha alma já vencida
Pelo medo de sofrer
Meu corpo chorando em luto
Afogado na correnteza das lágrimas
Acorrentado em rancor absoluto
Rouco de gemidos e lástimas
Meu eu calado e desnudo
Caído em chão de fotos
Memórias de um coração mudo
Desejos reprimidos em olhares devotos
Suspire em meu ouvido
Com a paciência do amor
Diga-me num grunhido
Enquanto calo em ardor
Conte-me sem sentir
Agora que sua mente já padeceu
Grite-me sem pressentir
O que seu sorriso já esqueceu
Se suplícios não lhe bastarem
Se minhas juras não lhe agradarem mais
Tenha minha alma novamente nua
Pois de dúvida meu sangue jaz
Se meu corpo, outrora razão de seu viver
Agora com repugnância não queres tocar
Dou-lhe as palavras que eu não quis dizer
Face ao erro de para sempre te amar
E se ainda assim não se der por satisfeito
Rogo-lhe com o rosto encharcado de paixão
Rendo-me ao meu medo, meu defeito
E juro conceder-lhe perdão
Apenas conte-me, ao meu aberto peito
Se nas vísceras daquele tempo que passou
Teu lascivo olhar de proveito
Em algum momento me amou
O Mal-Estar na Ilusão
Não há preza que apresse a prece
Naquele culto de corpo e canto
O hino que a mente emudece
O grito que faz do homem o santo
Vem a batida de fé no peito
O rito da ilusão nos pés
Que presos e sem jeito
Querem fugir de viés
Sobe no sangue a razão
O erro rasgando a garganta
Empurrando pela boca o coração
Arrancando da alma uma santa
Maria de olhos vendados
Prendeu minha mente ao chão
Crentes de corpos fechados
Morreram ao beber a ilusão
O Diabo sentado aos risos
Descendo com o mato pelas goelas
Para os que crêem, regozijos
Para os que vêem, as sequelas
Deram-me forças, deram-me
O peito para a razão
Deram-me olhos, deram-me
O espelho da putrefação
Que seja esse delírio coletivo, então
Os passos de sua fuga
Que corra até a morte, em vão
Pois é o amor a real cura
Oração a Santa Cruz
Esses dias descobri um canto
Meu canto, tão leve
Foi encontrado em meio ao pranto
De uma solidão breve
Em meu canto pus meus cantos
Cantos de desejos e ilusões
Nele meu descanso,
Tornou-se a razão de minhas paixões
E agora é meio estranho,
Como se o mundo não me coubesse
Quando saio nem me encanto
Com o real que me transparece
Na rua perguntam-me quem sou
Mas ora, como hei de saber?
Se sendo me descubro,
Mas não antes de morrer
Irei-me com o segredo no túmulo
E por isso irei sem ser?
Quando nua perguntam-me pra onde vou
Mas veja, que graça há em saber?
Se indo assim no descuido,
Vagueando na escuridão do sem-ver
Irei sem olhos prum futuro
Que já era certo de ser
Se lhe perguntarem pra onde ir,
Diga que já fui por aí,
Que não volto pra realidade
Sem antes sentir saudades da dor
Que não volto à sanidade
Sem antes desvirtuar o pudor
Pois não é me vendo que me enxergam
Não é minha carne minha verdade
Minha alma que postergam
Não passa duma calamidade
Afinal sou minha vontade,
Não o que de minha vontade fizeram
Sobre as cores, dores e amores
Regardez, les jeunes
La bleunesse de mon coeur
Alors que ma douleur
Est devenue jaune!
Ma France
Vou-me embora
Deixando essa vida para trás
Não posso chorar agora
A alegria foi tão fugaz
Adeus às lembranças e aos amores
Adeus à criança que já não sou mais
Bebi do amor, vomitei as dores
Conheci a solidão que agora jaz
Vou-me embora, vou-me agora
O tempo já não resiste mais
Vou-me embora, já é hora
Meu amor o tempo refaz
26/06/08
Brincadeiras de Roda
Veio o ladrão de olhares
Tirar meus pés do chão
Veio com pesares
Ensinando-me a a ilusão
Arrancou minha pele dos ossos
Máscara da imperfeição
Fez de seus olhos mortos
A cura de minha razão
Veio o sonho de infância
Dar-me a mão
Trocar olhos de petulância
E ir-se em vão
Lhe faltou o toque
Lhe prometi o amor
Lhe dei a tristeza
Para evitar a dor
Sigo cambaleante
Sem direção
Sem forças
Para a paixão
Sigo dançante
Na contramão
Com forças
Para a ilusão
Que sem sonhos na mão
Morro assim,
O corpo erguido
e a alma no chão.
A punição da culpa pelo tempo mal-vivido
A, quem me dera se esses passos falhos
Guiassem minha marcha à ilusão
Despindo meu coração em talhos
Saciando a sede de minha razão
Quem me dera livrar-me dos modos
Permitir a cegueira do desejo
O apetite que vaza de meus olhos
Encarcerado no amor que versejo
Não fosse a mente encabulada,
Tirana maldita!
Não fosse a língua acanhada,
Parva aflita!
Meus lábios sorririam com glória,
Meu peito com gratidão
Seria minha paixão liberatória
Que arrancaria o medo da desilusão
Meu corpo tornando-se a pele de quem nunca se ouviu
Nossos olhos desnudando a paixão
Meu riso salvo doutro canto vil
Minha alma rindo face à fabulação
A, quem me dera o almejo do tempo
Para mudar aquele instante condenável
Quando neguei-lhe com acanhamento
Esse sonho agora friável
Quem me dera, meu amor
Poder tocar-lhe o rosto
Apagar de meu peito antiga dor,
Esse rancor imposto
Descobrir seu olhar que me segue
E viver enfim,
Viver de alma entregue
Um velho chamado Paixão
Rugiam os passos do velho manco
Suas pernas tortas tateando na solidão
Seus olhos mortos molhados por encanto
E sua alma crua exalando podridão
Sedento de risos e roçadas
Em busca do álcool e da velha fumaça
Perambulava vadio por lembranças inventadas,
O velho que chamara a morte por pirraça
Era caolho e perdera os dentes
Antigo pirata de amor roubado
Afogou-se em prata e sonhos reluzentes
Querendo falecer de falsos pecados
Com o tempo engasgado em sua alma,
Embriagado pelo ciclo da eternidade
O marujo carcomia com calma
Os sonhos da irreverente mocidade
E o velho hoje preso ao chão de paz
Carrega em suas trêmulas mãos lânguidas
Os ossos do amor que jaz
Cantando com atraso a verdade cândida
“Se assim vivendo
Tanto anseio morrer
Imagine morrendo
O quanto irei viver!”
E agora
Correm os pés do velho manco
E sem hora
Suas pernas tortas abandonam o destino
E agora
Seus olhos vivos encontram o encanto
E sem demora
Ele parte com tiro repentino
E chora
Partindo sem melódica memória
E implora
Para lembrar do sonho seu
Mas sem glória
Parte o velho e sua história
Sem lembrar-se que morreu
Je porte le monde dans mon ventre
De tanto beber os outros
Acabei por embriagar-me
Tornando-me todos
Dans un corps de larmes
Virei suas angústias
Provei seus amores
Vomitei suas injúrias
Engoli seus impudores
Tenho o mundo em mim
Os homens e os sonhos
C’est vous que je suis,
E suas almas que componho
Engulo o que vomito
Extirparam de meu sangue os verbos
Minhas palavras, tão suas
Escorrem tão impuras, não mais nuas
Demonizadas por insultos cegos
As labaredas da poesia esfriam
Acompanhando seus passos tão humanos,
Puros, malditos; e me evitam
Abandonando a brasa cálida de meu canto cigano
Isenta da culpa por injusta insensatez
Sua indiferença invocou minha ranzina razão
Por incontroversa paixão e incontida estupidez
Sufocou minha mente e perdeu a honra do perdão
E meu corpo que outrora fervera por suas sóbrias promessas
Agora falece na falta de seus olhos cândidos
De seu toque morno em meu sono desperto,
Seus lábios moles em minha força lânguida,
Seu riso impuro em meu peito aberto,
Seu canto a desvirtuar-me sem pudor
Com a inocência do imprudente, incerto
e prometido amor
E você, que estacou meu temido tempo!
Sem som largou-me nessa lógica solidão, tão manjada
E eu que me via acostumada,
Sem saber que não se almeja a sinceridade da ilusão
E você, que libertou meu tormento virulento!
Há tanto prisioneiro da perfeição
Fez de meu corpo um poço de consentimento
E obrigou-me a contentar-me com insuportável suposição
Pois faça de mim aquela que deseja
Agora que já não pertenço a sua perdição
Serei ela: seu corpo, seu sorriso, sua certeza
Pois de mim só resta a carcaça oca da desilusão
Pois sou sua, não mais que minha
E a intensidade que te pertenço
Equivale ao exagero da poesia
E à dor que dispenso
A trabalhar
Eu vou pra festa do Chacal
Fazer da vida um bacanal,
Uma orgia de paixões sem fim
Enlouquecer o anjo Querubim
Vou viver assim, sem caminho
Seguindo o destino pelo qual definho
Por prazer, revolta e vício
Vivo e morro,
Voltando sempre ao início
Um bosque chamado desamparo
Como puderam teus olhos de vidro
Ao me amarem, despencarem em solidão?
Seus cacos rasgando-me em castigo,
Um deles perfurou meu coração
Desses cacos fez-se esta rua
Ladrilhada com diamantes de sangue
Donde agora padece minha alma crua
Enterrada ao fim, num bosque sem nome
E o anjo que por tempos me amara
Que nu de mim, fizera-me me entregar
Agora estende os braços com tara
E sem olhos rouba-me o olhar
Cega, cedo à loucura
Ao vício e aos sonhos risonhos
Morta, mato a ternura
E vivo de esperanças que indisponho
Mas desses cantos bisonhos
Nenhum fez-me enxergar
Pois continuo amando o anjo
Que por medo não soube me amar
La parole à la Paresse
De quem é a culpa por meu pranto?
Culpa minha, que corto o encanto
E calo teus impulsos de ardor
De quem é a voz que me desvenda?
É a do mundo, de rouquidão horrenda
Que rotula teu impudor
E este som que me desvaira a carne?
É a vida que lhe passa cheia de charme
E promessas de amor
E esse cheiro de solidão que exalo?
É o perfume da rosa que apunhalo
Para encher-te de calor
Mas que desgraça ter a graça roubada por teu desgosto!
Não é a graça que lhe é tomada, mas bem o oposto
Pois de vadiagem morre a Dor.
Então a libertinagem salvou-me da desgraça?
Minha cara,
Tua alma devassa calou com cachaça todo e qualquer rancor
Mas fadou-te a beber do amor
E engasgar-te na fumaça
De tua própria trapaça,
Morrendo no pico do esplendor
Mas sem nunca degustar da calmaria,
Do mar em terra fria;
Viverá apenas de morte contínua
Renascendo a cada dia para a quebra da rotina
Minha querida,
A libertinagem fadou-te a morrer de alegria!
Quando mentem os poetas
Já se foi o tempo de ternura e tentação
De beleza e inspiração
O tempo de sofrer por assassino amor
De chorar por querer a dor
Tempo em que a razão não me impedia
De amar quem me agredia
Tempo em que o pecado era desejado com atraso
E o afeto então abortado
Deste tempo nada restou além da cicatriz
Deste sonho digno de casta meretriz
Deste tempo vejo a candidez se esvaindo
Meus versos morrendo e meu coração fingindo
E agora o que escorre de meus lábios é a podridão
Meu hálito mefítico de pecado e desilusão
Agora o tempo pára para apagar minha dor
Reduzi-la a uma lembrança sem valor
O tempo pára para me dizer
Que amar não é apenas sofrer
Tampouco esquecer
Ou aceitar
Renegar,
Mas gritar
E lutar
Por seu querer
Então veja só!
Todos estes anos de falso amor
Minha saliva restringiu-se ao impudor
Meus lábios cerrados
Meus atos acalentados
Por aqueles por quem sonhei
Aqueles que nunca de fato amei
As 130 primaveras
Se as flores, as rosas
Não fossem assim tão venenosas
Quem sabe não teria minha mente uma chance
De aceitar enfim qualquer romance
Se não levassem tantas primaveras
Para ter meu corpo junto ao seu
Quem sabe minhas lembranças não quedariam velhas
E eu ainda seria aquele “eu”
Se meus sonhos forem a esperança
De relevar então um mar
Quem sabe eu volte enfim à dança
E possa por último sanar
Quem sabe com teu corpo
Me volte a real poesia
Pois saiba que mesmo morto
É o amor minha única alegria
…
A verdade é que minto
Por noites tentei admitir
A alma que me vem no carnaval
Tentei sem êxito fingir
Que essa dor não passa duma ânsia carnal
Por dias quedei a ouvir
Que tenho predestinado um futuro individual
Que a leviandade de meu agir
Me condenará à solidão liberal
Mas digo logo e digo breve
Quanto maior for meu ímpeto libertino
Mais estarei entregue
Ao amor genuíno
Que maravilha!
Quando provo de teu sabor, ai amor,
Sinto flores brotando em meu peito
Seus espinhos encravando em meu futuro
E meu sonho se tornando meu maior defeito
Por guiar-me nua no escuro
Quando me apego a teu calor, ai amor,
Sinto palhaços alegrando meu corpo
Sinto minha carne solta, entregue a todas as outras
E meus seios rindo de meu rumo torto
Vestidos por tuas leis frouxas
Mas quando deixo seu corpo, ai amor,
Sinto a percussão de tambores passados
Já então esquecidos por minha alma rendida
Ao domínio de homens domesticados,
Anjos de verdades acudidas
Ausente de amor, ai amor,
Vejo a pornografia de meus olhares
Cedidos à carência humana
Vejo a vida em todos os lugares
Embaçada por minha visão mundana
Carente de amor, ai amor,
Vejo a indesejável realidade
Só vejo a desgraça, só a desilusão
E mesmo louvada por minha libertina idade
Sua falta desatou o nó da solidão
Sem teu amor, ai amor,
Me escondo nesse canto,
E retorno à minha ingênua infância
Iludida, me encanto
Com qualquer cândida esperança
Indiferente a dor,
Sou só uma criança,
Sou só uma criança,
Ai, que bom ser criança
E não sofrer por amor
Não sei se é azar
Ou benção
Mas não sofro por amar
Só por ilusão
A incompreensibilidade da mente (ou sua evidente estupidez)
1 É engraçado quando a vida me canta: Aproveite a alforria e viva da boêmia euforia
2 Engraçado porque já perdi minha cabeça,
3 A esqueci na estação de trem
4 Quando vi meu amor passar sem alegria
Decidi viver da nudez de meus instintos e da pureza de minhas paixões.
4 Quando vi meu amor passar com indiferença
3 Lembrei-me dum passado que me convém-
2 Entediante, porque já encontrei minha pressa,
1 É entediante quando o rádio me canta: Obedeça a tirania e morra de maquinária covardia
A feiura está no amor
Posso o mundo benzer
Posso fazer chover
Posso a miséria combater
Posso o futuro predizer
Posso fazer-me bela
Posso deixar-lhe sequela
Posso tornar-me singela
Posso virar a donzela
Posso pertencer ao mundo
Posso tornar-me bixo imundo
Posso ser vagabundo
Posso ser rato iracundo
Posso até voar
Posso fingir dançar
Posso domar o mar
Posso a morte evitar
Posso andar nua
Posso ser da rua
Posso roubar a lua
Posso virar perua
Posso tudo que posso só para ser sua
Um poema ruim às vezes faz bem
Não é preciso ser ator
Para fingir a vida
Não é preciso ler Goethe
Para morrer de amor
Não é preciso tudo negar
Para acreditar na paz
Não é preciso ódio
Para aliviar a dor
Não é preciso Marx
Para negar o sistema
Não é preciso a anarquia
Para almejar a liberdade
Não é preciso ser covarde
Para fugir do tempo
Não é preciso chicote
Para fustigar a mente
Só é preciso nessa vida errante
Sacrificar o próprio corpo
Em prol da liberdade narcotizante
Ou seja,
Dane-se tudo, seja você seu mundo:
Ame sem poder, sem saber e sem querer
Faça o que quiser
A polícia é pouco para a alma
As regras são nulas frente ao viver
Viva, viva, viva, viva
Escreva o que quiser
Escreva pra você
Os outros são nada frente ao morrer
Leve em seu caixão um sorriso na mão
E álcool no coração
E viva, coma a vida
Vire a vida
Morra de vida!
Mulheres da vida (Inacabado)
Lisbela riu das pernas tortas de Mário
Zombou das rimas mortas de solidão
Sorriu para seus sonhos de escárnio
E decidiu ceder finalmente à paixão
Carla quis caçar o corpo de Caio
Encapetada pelo prazer visceral
Ardeu quando tocou seu lábio
E decidiu viver de satisfação carnal
Emília entregou-se a um homem sem nome
Movida por um desejo perverso
Descobriu-se amante de Ivone
E amou o sexo ao inverso
Carolina viveu para Ricardo
Espancada e dilacerada por falso ardor
Logo livrou-se do maldito fardo
Para nunca mais gozar com amor
Lolita dividiu sua solidão com Oscar
Acostumando-se com sua inigualável perfeição
Mas entre os dois ficou o mar
E ela agora vive de ordinária paixão
Leila há muito amou Giraldo
E este muitas outras amou
Até o dia em que, irada,
Leila com dois tiros se vingou
Joana suou ao sorrir do jovem Sandro
Ficou dias a delirar com sua puberdade
E ao finalmente realizar seu plano malandro
Foi presa por roubar-lhe a virgindade
Maria perdeu para o mundo seu homem
Por duendes e unicórnios foi levado
Pois garoto no mato vira lobisomem
E mulher na sobriedade é pecado
Outras virão.
Para os fantasmas andantes
Meus pêsames para os que temem a subversão,
vulgo lucidez
vulgo liberdade
Para os que temem o amor,
vulgo insensatez
vulgo insanidade
Para os que temem a paz,
vulgo candidez
vulgo igualdade
Para os que temem a simplicidade,
Para os que temem a ida,
A volta;
Para os que temem a derrota,
Para os que temem a revolta,
A paixão;
Para os que temem o exagero,
Para os que temem o excesso,
A ilusão;
Para os que temem a ação proibida,
Para os que temem a transgressão indevida,
Para os que temem, enfim, a vida;
Meus pêsames.
Meu fim por esses belos pecados
Isso que controla minhas mãos
Tornando-me animal de escárnio,
Esse bicho inglório
Carente de razão
Isso que me define capaz
Num momento de ingrata euforia
Tornar-me capataz
De minha própria alegria
Isso que esclarece meu viver
Que faz de mim meu títere
Empurrando-me no passo do querer
Fazendo do mundo minha síntese
Isso que planta em meu peito a ventura
De saltar nas incertezas
De rir com pura ternura
Mas fazendo de mim, hélas, ingrata burguesa
Isso (que canta em mim), a libertinagem
Faz de tantos erros minha glória
Lota meu corpo e coração de vadiagem
E faz do amor a verdade simbólica
Verdade que infiltrará em meu sangue
Penetrará por todos orifícios
Até que minha carne se zangue
E rebente por suplício
A paixão voará então pelos ares
Afastando de cada homem os males
Deixando-me no mundo como mártir,
Meu corpo explodido de amor
O sangue jorrando amor
Meus olhos, mortos de amor
Minha vida, morta por amor
Ai, quem me dera tão honrosa dor!
D’accord
En fait, c’est mieux comme ça
Mes larmes ne seront pas de sang
En fait, c’est bien que tu ne m’aime pas
Ma colère ne durera pas longtemps
Laisse moi partir, ne t’en fait pas
Ma désilusion va prend soin de moi
Laisse moi sourrir, je ne t’aime plus
Même si je t’aime pour toujours
Mais c’est bien, j’y vais
Si tu ne m’aimerais jamais.
Álcool e alma- só outro pretexto para sambar
vem, pão e vinho
abastecer o vazio
de meu saber
gira, vira o mundo
traz o homem moribundo
pra me querer
cai, vomita e tira
essa bizarria
dentro do meu ser
vai, mas traz de volta
essa alegria e revolta
do meu viver.
olha, me leve contigo
e leve consigo
meu jovem amor
olha, não ligue pro falso,
meu singelo e descalço,
inusitado amor
vem, me pega e me leva
me gira e se entrega
vem perder o pudor
vai, suma e consuma
doutra nova alguma
mas traz de volta o ardor
pois veja, mesmo assim rochoso
meu coração indecoroso
quer pulsar por teu calor
pois sinta, por minhas veias ébrias
correm todas as misérias
e júbilos desse bisonho amor
mas por favor, não deixe
que esse galanteio
vire esquecido recreio
só agora, não desleixe
ponha teu amor em meu seio
(pois sem teu sabor, vagueio)
até onde o tempo nos leve,
sem que a rotina nos supere
e a paixão desvaneça
e o fim nos apeteça
e leve meu amor, ai
e leve meu enganoso amor
Tripalho
Amanhã verei o samba chegar
O amor balançar
E a platéia sorrir
Ontem vi a dor se afogar
O patrão se matar
E a miséria sumir
Mas hoje acordei dum sonho, ofegante
Recitei a verdade narcotizante
Para alguém comigo acordar
Mas se agora os cegos andantes
Marcham o hino, ignorantes
Como eles hão de se indignar?
Se esses animais transcedentes
Fadados à cegueira imanente
Morrerão sem ver,
Quem há de humanizá-los?
Esses macacos domados,
Quem há de salvá-los
Do sistema inexorável?
Da rotina intragável?
Pois sendo pródigos em esquecer
Ao enxergarem sem ver
Cederão à cômoda cegueira,
Permanecendo na estupidez mundana,
Na insensatez derradeira,
Na eternidade profana
Pois prezando assim a solidão
Dando à divindade toda a razão
Vivendo assim na superficialidade
Banalizando a real idade
Morrerão todos sem ver
Vendo o que os olhos rotinizaram
Acreditando no que os olhos ofuscaram
Viverão numa eterna leprosaria
E os olhos lhes negando a verdadeira alegria
Os olhos! Os órgãos!
Negarão todo o saber
Nos afogarão em hediondo sofrer
Pois não é sempre que ao fixarmos o espelho
Podemos nos ver
Nós, saltimbancos
Será que jamais perceberemos
Que é a vaidade que nos iguala
E a humildade que nos distingue?
Ânsias sandias
Quero a diferença
Prezo a bizarria
Quando a mediocridade anuvia o talento
Quando a eternidade dura um dia
Morrerei de primorosa overdose
Despojada de regras
Condenada pela cirrose
Iludida com um amor piegas
Embriagada de erotismo humano
Satisfeita com o prazer vicioso
Descobrirei o sexo de um anjo
Aceitarei o afeto indecoroso,
O afago inebriante
Viverei da sedução etérea
Viverei o instante
Navegarei com a intuição
Neste mar sem fim ou limite
E
Ao invés de reformar a paixão
Esperarei que ela ressuscite
Preencha meus seios
Toque minha pele
Roce em minha mente
E serão os mais puros devaneios
Que farão com que eu enfim me entregue
A todos esses anseios
E acordarei enfim dum sonho
Que durou 18 anos inteiros
Revés conveniente
Minhas mãos nuas nada portam além da humildade
Não carrego armas, mas modestos versos
Como os vê nobres? Eles se banham na vulgaridade
Se cobrem de miserável simplicidade
E para enganar minha dor
Camuflam-se em serena histeria
Para fingir o amor
Afagam-me com agradáveis bizarrias
Ai, lamentam em meus ouvidos uma perda
Uma perda, em minha mente, inexistente
Mas que fez de meu coração
Esse órgão veemente, delinqüente
E é tudo incoerente
A dor se esconde em meu intestino revirado
Dilacerado por promessas fantásticas
Ai, de tão pura fantasia
Meu saber já rasgado
Acreditou noutra compania
E eu aqui, arregaçado
Choro por tão cruel idolatria
Choro pela peça de minha mente
Que marota, recitou uma paixão
Que só tocou um coração
Mas que por florescente troca
Abriu esses meu olhos
Pra mais nova ilusão
Curto lembrete
Essa vida de rimas
Me fez acreditar
Que agora dançando
Aprenderei a amar
Para Carolina
Estava implícito
Ora, minha poesia é a dança da mentira
Do exagero, do falso desespero
Não passa da afeição
Por lograr o coração
Portanto não se preocupe,
Pois minha mente é calúnia
Meus versos oblíquos
São forjadas petúnias
Meu corpo se inunda em paixão
Minha pele exala amor
Não creio na razão
Mas de tanto temer a solidão
Minhas mãos teimam na ilusão
De entulhar-me com falsa dor
Nunca cedi ao hábito condicional
Nunca pensei antes de atuar
Nunca neguei um apaixonado olhar
Nunca restringi-me ao pecado carnal
Vivi ousando, recitando a ventura
De ser livre, animal
Portanto não se inquiete,
Por trás das rimas de amargura
Há uma criança já entregue
À nostalgia delirante do amor irracional,
Incondicional, encravado em minhas entranhas
Correndo em meu sangue morno
E subindo-me à cabeça, levando-me à loucura delinqüente
De viver da paixão, e dela somente
Tango de Lola
Deito-me num leito de palavras
Umas certas demais
Outras, excessivamente malogradas
Banho-me em lágrimas solitárias
Ainda que unidas no embrião
Rolam em minha pele, solidárias
Afogando minha solidão
Observo-me num reflexo sorridente
Mas minha mente não se mira na mentira
Sabe de meu contentamento descontente
Em ver na distorção uma alegria safira
Recordo-me de noites lancinantes
Dos pecados e pecadores
Das promessas murmurantes
Dos olhares embriagadores
Dos tocares palpitantes
Dos suspiros provocadores
Dos gemidos ofegantes
Dos momentos gozadores
Dos minutos restantes
Do sorrir dos consumidores
Os triunfantes, os simpatizantes
Os administradores, os pintores
Os tolerantes, os repugnantes
Os sofredores, os saqueadores
Os traficantes, os humilhantes
Os agressores, os pagadores
Nenhum apagou minhas dores
Ou pagou meu orgulho vacilante
Hoje perguntaram-me sobre o amor
Mas de tantos amantes
Restou em meu corpo somente o temor
De outras noites luxuriantes
Toscos anseios
Atuo o ato do torto temível
Da descrença do destemido
Do amor amargo e amolecido
Vivo vendo o viver vencido
Pelo pressuposto da paixão
Que quebrou cada quimera
De cada cansado coração
E essa exorbitante emoção
Preenche meu peito
De inviável ilusão
Delírios dispersos
E por nunca me entregar
Fui condenada a ser minha
E ainda que o espelho me sorria
Amor não há
Sem qualquer idolatria
Minha ilusão já me tomou a certeza
Mas que alegria! Jamais quis a pureza
Da absolutamente estável razão
Quero mais a insensatez, a aventura
A imprudência, a loucura!
Dizem por aí
Que amar é se entregar
Cantam por lá
Que amar é se enjaular
Digo por aqui
Se submeter a um é aceitar a decrepidez do coração
É se sujeitar
A viver sem a esperança e a ilusão
É renegar
O amor de todos, animal
Do natural se esquecer
É, por fim, trucidar
A verdadeira essência do ser
E pela relutância de minha mente em se entregar
Decido logo que mesmo atentando,
Enraizando meu coração na razão
Deixarei para depois o tango
De esmera e pura paixão
Para agora, digo logo
Não darei a mão ao vento
Ao incomutável presente
Frente a solidão, alento
Pois da libertinagem se exclui o amor impertinente
À jactância de todos os homens
Se de minhas calúnias
Fogem teus sorrisos,
Se de minha fúria,
Surgem teus motivos
Cale-me logo, antes que me emudeça
Já que fora tão sincera minha pureza
Diga-me qual minha certeza
Já que é tão clara minha transparência
Se outros olhos despem minha alma
Quem há de ver a calma
De meus falsos suspiros,
Agora que com o tempo iro?
Se de minha dor vazasse a verdade
Se meu corpo aclamasse meus atos
Se da vida restasse a sinceridade
Se não existissem amores caricatos
Saiba que sobreviveriam os incertos delírios
As incertas rimas rogariam com solidão
E por meticulosa vaidade
Incitariam espontâneos suspiros
De deleitosa e terna ilusão
Mas se em meus sonhos não se manifestasse
A molesta, ainda que inevitável dor
Veja, minha mente jamais provaria do amor!
Pois sem o pesar não vejo a ventura
Sem o gelo não fervo com calor
Meu corpo não amolece sem a amargura
De outra inviável boca de ardor
Antes de nos tornarmos banais
Me prende, me vence
Ela me quer nu
Pra ver o tempo passar
E o amor chegar
De jeito tocável.
Se lembra quando o amor
Ainda era saciável?
Boca de almas
Em seus corpos encontro a solidão impura
E em suas histerias enxergo a calada poesia
E de suas angústias faço rimas de injúria
Sou suas fantasias,
Suas libidinosas miragens
A mentira anônima
Sou a alma de seus personagens
Sou uma constante heterônima
Sei meus limites por ter visto o que há além das fronteiras impostas
Vou me atirar
em meu mar
Pois se não viver do oceano
Cavarei minha própria cova
Na terra batida de rotina.
Donne-moi tes amours, ta vie, ton sourrire- je ne peux plus mentir
Cansei do tempo
Do Tempo imprevisto
Do tempo para provar
Do tempo que os poetas levam para amar
E o Tempo cansado de esperar
Para provar que o que os poetas cantam
É o que sei atuar
E o tempo de arte ilustra
A tão ilustre dança
A qual sem tempo não pude dançar
Sem tempo não pude aprender
A te amar
O Tempo roubou-me o saber
De como viver
Sem minha doente solidão
Jovem pureza
Me entrega à certeza temporal
De que o que dizem os poetas
Em meu corpo é ilusão
Mais ils ont brulé mon amour
Ils ont acheté mon coeur
Pour un peu de chaleur
Et um morceau de passion
Vou matar o Tempo
Nos querem todos iguais
A lucidez de meus erros a assusta
Ela, dengosa, me enleia
Me afana, me usa, me abusa
E meu corpo incendeia
A perdição de meus atos a seduz
Digo breve calúnias do coração
Ela me responde com olhos de luz
Muda, recita a solidão
Eu, louco, retiro-me em meu corpo
Oco, ela tirou-me minha razão
Minha quimera perdeu-se em seus lábios
Eu quero prazer, quero seus seios vários
A menina ama pra pagar
Os sonhos de futuro amor
Mas de pirraça, não há de amar
Os calados corações que iludem com seu ardor
Hei de falecer por teu sorriso
E do álcool viverei por regozijo
Pois se em outros corpos ela me ama
O que faz em minha cama?
Senão manter a falsa precaução
Sem saber que ao me amar ela alimenta
Minha necessária solidão
confissões embriagadas
e agora me pergunto
se enfim aprendi a amar
os fatos relutam
e me ensinam a forjar
forjo em meu grito a dor
em meu gemido o amor
em meu sonhos o ardor
de quem nunca aprendeu a viver
de tanto dançam
a poesia do sorrir
de tanta paixão já me esqueço
de que amar não é sofrer
de tanto amam
sem saber dizer
proclamam, recitam
palavras sem sentir
minto, canto
me engano, te amo
mas logo verá
que minha dança é decorada
pois em teu alvará
nada resta além da dúvida
em meu canto, embriagada
sofro nua
sem saber como gostar
sem aprender a amar
sem saber se o que amo
é de fato o forjar
então admito logo:
do que gosto
de fato
é me enganar
Jamais me entregarei
Essa exatidão temporal me cansa,
me entulha de deveres,
me rouba os prazeres,
impõe a desesperança- sou incerta, viverei na contradança
Gozemos em harmonia
Quero da rosa solitária
O perfume furtado
Da brandura ilusória
O valor deslustrado
Quero pela arte negar
Esta dor controlada
Por um sonho vulgar
Da vida emancipada
Quero seu corpo perder
Pois de tão usado, já me canso
O forjado viver
Não mais amo, canto
Cantam a frigidez do ser
Cantam a perdição da rotina
Canto o vício do prazer
Canto minha razão aguerrida
Se hoje a ilusão não é capaz
De recuperar a pureza do pecado
Ao aliarmos massificados cantos
Estorvaremos o porvir condenado
Se na utopia nos esquecemos de crer
Se a paixão deixou então de ser
Todos os corpos devo amar
Para enfim à liberdade retornar
Quero da verdade simbólica
Recuperar o homem perdido
Quero do prazer simplório
O real inibido
Quero ao longe amar
Ao som mais virginal
Quero na vida sambar
Com meu ímpeto animal
Sou nosso desejo
Eu assim
Dentro de mim
De você
De todo o ser
Nem lá
Ou cá
Ele
ou
Ela
Seu desejo
A vontade dela
Sou sertanejo
Sou donzela
Sou o mundo
Da janela
De seu quarto
Sou o parto
Iracundo
Sou aquarela
Eu, neles: por mim
Menina, imagine só
Amar a dois
A três
Amar o freguês!
Menina, que bizarria
Engasgar com a fumaça
Do pecado e da desgraça
De tua compania
Menina, tire esse verniz
Largue meu coração
Deixa ele feliz
Aceite essa paixão!
Ela me tem
Quando faz graça
Ela é atriz
Anda nua
Quando me enlaça
Ela é feliz
Sem ser sua
Nem de ninguém
Maria, Mulher da Vida
Pelo triste aborto da felicidade
Caíram em mim as lágrimas de uma moça
Que por amar a liberdade
Foi-se embora, largando a louça
Seu marido, destemido
Chegou em casa assanhado
Deitou-se descontraído
Urrando por um cuidado
Quedou um tempo, esperando
Até esgotar-lhe a paciência
Pulou da cama, berrando
O corpo à mostra, sem decência
Correu desesperado, viu a louça sem lavar
Impetuoso, agarrou o facão
E Maria foi procurar
Esquecido da razão
Não a encontrava
A procurava
Sem paixão
Não a via
Até que então
Num canto sem alegria
Estava Maria destruída
Distraída na solidão
O homem, irado
Pegou sua mão
Arrastou-a pelo asfalto
No facão ao alto
Refletia o sol do verão
Maria, num suspiro fraco
Suplicou perdão
Ele, com asco
Cuspiu em sua face
E furou-lhe o coração
Sem ninguém em seu encalce
Foi-se embora pacato
E ao chegar em casa
Lavou todos os pratos.
Rosa vermelha, dilacerada
Desfeito,
O fato remete enfim às atendidas lágrimas
E estas, sem escorrer, se escondem na dúvida
Do quanto foi feito
Ansiando por virar enfim as páginas
Deste romance de constante lamúria
Sigo cega, cedendo à vontade
De viver da solidão impura
Pois pelos horrores sucedidos em meu corpo
Que rompido sangra, morto
Desejo entregar-me fielmente à loucura
Esquecer-te enfim, com amargura
Pois teus versos nulos, nunca proclamados
Enterraram-me arfando numa cova em chamas
Junto a outros corpos dilacerados
Rompidos em outras camas
E que unidos, recitam
Em uníssono mórbido
“De tanto falso amor
Por teu lábio sórdido
Falecemos por ardente dor
Em paixão ilusória
Que por perfídio ardor
Levou-nos sem glória”
Tu, que roubaste minha pureza
Há de se lembrar
Que por tê-lo feito sem destreza
Há de chorar
Por perder minha certeza
Maria
Olhe no espelho, mulher aflita
Assista o mar que inunda tua face
Tão doce, escorre
Por essa dor bendita, finita, restrita!
Ela é João, é Maldita
Mulher cretina
Alberto, Rita…
Garota esquisita,
Abraça a paixão e implora por amor
Fecha a mente e vive sem supor
Que tão certo quanto seu ser
Somente um outro que ame viver
Desfecho
Você que canta
A maledicência do amor
Venha e perceba
Que em mim não existe dor
Talvez por não saber amar
Eu saiba viver
Me apaixonar,
E aproveitar a boêmia plenitude do ser
E às vezes, quem sabe, mentir
Só pra no aperto poder sorrir.
Incompleto
Olhe amor, por aqui lhe digo
Percebo enfim tua agonia
Pois outra paixão que fustigo
Deu a castigar-me com louca alegria
De todos os olhos que dissimulei
Aqueles abraços que forcei
Os livres e ingênuos
Calados e obscenos
Os que amei pertenciam a outro
Que em minha desilusão jaz
Pois este mesmo fustigou-me
Com doce mentira fugaz
Agora sei, meu amor
A causa de teu pavor
Pois a mesma quimera que te amou
Quis se apaixonar
E olhe só! Agora estou eu a lamentar
Ah, quem me dera saber amar!
Meu bem-aventurado viver
Passou nas nuvens o raio da inovação
Matando os pássaros da ilusão
Pegou-me de jeito no precipício
Entrou por mil orifícios
Saiu com o sangue morno
Limpando meu corpo insano
Despindo minha aurora
Gerando o puro fogo
Que queimou meu engano
Da memória
Que esqueço
Emudeço
Endoideço
Ensurdeço
Transpareço
Embruteço
Amadureço
Esqueço
E volto à glória
“Vem canto e flor,
Estrela que canta
Mentiras de amor
Vem e me encanta
Me leva nesse movimento
Vem salvar meu povo
Vem me dar alimento
Vem me amar de novo!”
“As flores em que pisou
As flores em que pisa
O pecado que amou
Que te imuniza
Elas vão crescer de novo
Ele vai te amar, o novo
Elas vão crescer de novo
Você vai amar por todo.”
E volto sóbria,
Sento na lembrança
Penso na vitória
De ser criança…
E penso eufórica
Ainda sou menino!
A diferença simbólica
É que agora bebo vinho.
À vossa alteza: a verdadeira essência da vontade.
Que merda essa eternidade que não passa
Que me desgasta
Toda essa convenção sem razão
Me mata de tédio
E me rouba o tesão
Vou-me embora,
A lei botou-me pra fora
Desistir?
Só em boa hora. Não agora:
Ainda tenho uma vida a seguir
Ai que delícia
Fazer um poema sem beleza
Viver da preguiça
Sem querer ser realeza.
Eu e ela e vice-versa
Alternativa? Livre fingida.
Lúcida? Cega distraída.
Livre? Discretamente reprimida.
Cega? Irremediavelmente aguerrida.
Exata? Eternamente perdida.
Me armo: irei à Roma onde mora meu amor.
Aperta o peito
O aperto
Apalpa
Meu sentimento
Apaga a paixão
Apartada
Afaga
Minha desilusão
Perdi meu corpo
Dilacerado
Não vou chorar
Por errar
Não vou perdoar
Essa maneira de ser
De não saber sofrer
Minha amada,
O que se passa
Em nosso amor?
Por que procuras
O que não existe?
De tanto falso ardor
Ninguém desiste
De te amar
De te querer
Mas que dor que dá
Ver outras lágrimas
Ver tudo se perder
Em outras lágrimas
Ganhar a dor
Por tuas lágrimas
Acreditarem no amor
Não vou chorar
Por te perder
Por mortificar
O meu viver.
.
Que meus olhos cegos
De saber
Aprendam logo
A sofrer
.
Sem amor não sei viver
Não vivi
Nem vi
Você viver
Miami
Eu, errante
Amante da solidão
Ser constante
É sofrer sem razão
Sou quantas você quiser
Mas vou eternamente ser
A mulher
Que seus olhos não podem ver.
Entulha tua Carne com Paixão que o Jantar já, já será servido.
O Feio e o Saber
O Saber e o Viver
O Amar e o Querer
Se apaixonar e sofrer
A Carne e o Amor
O Sexo e a Dor
A Dor e a Vontade
A Culpa e a Idade
A Dúvida e a Saudade
Dá-me o que quero
Mesmo sem saber
Quero a carne
Entulhada
Entalhada
No viver.
Caminho para o sucesso
Quando encontrei enfim a solução
O tão glorioso fim
O início da razão
Segui sem hesitar
Por um caminho estranho
Enfim
Começo a pisar
Em carne ossuda
De gente já padecida
Na miséria e injustiça
Velhos moribundos
Crianças esquecidas
Trombadinhas, Traficantes,
Falecidos no mundo
Logo paro,
Peço perdão
Por contribuir com tão lastimável situação.
No caminho para o sucesso
Não me ensinaram a amar a ilusão,
A massacrar a realidade,
A viver do hostil,
A ignorar o febril,
A vangloriar o imbecil,
A aproveitar-me da desgraça
Da descrença
Da desilusão
De meu mundo
Chamado Brasil.
Éramos nós
Como é frágil, morena
Um sentimento falso;
Um nó frouxo
No novelo do mundo.
Falsa Pretensão Solitária
Calar sem querer
Rir sem saber
Sofrer por não ter
Lembrar da ilusão
Por que é tão dura a paixão?
E ainda tão simples de descrever…
Todos os olhos dançam
Na mesma fórmula de amar
De minha memória já vaza teu sorriso
Escorre
Ácido, queima.
E minha ilusão morre.
E ainda, insisto na dor
De amar o impossível
Vejo em teus olhos outro ardor
Definho pelo falso imprevisível
Cedo-me portanto ao inevitável
Ansiando tuas mentiras
Minha verdade adorável
Minha vontade inibida
Calo-me quando o amor quero proclamar
Num fingido sentimento!
Engano-me portanto acreditando
Que teus lábios sabem amar
Suspirando, recitando
Murmúrios a difamar
E ainda, por eles renegarei a razão
Mergulharei nessa sincronia absurda
De louca, bela e cretina paixão
Entregarei-me à solidão surda,
À tão linda e certa ilusão
Confissões de um cego
Ando embriagado
Falecido na vida
De tão acostumado
Viro a mentira indevida
Ando sendo humano
Despertando despido
O amor, afano
Sou injusto e falecido
Pelo impossível suplicável
Indubitável me privo
Defectível dançável
No viável eu piso
Sou mefítico ser-humano
Condenado a ser humano
Cansado de embaraçar
Fatigado de negar
E que engraçado,
Amado por não amar
Todos os olhos do mundo
Passo sem solidão
Me apaixono sem saber
Podemos nos amar
E não sabermos o que dizer
Antropofagia
Ai, que moça estranha
Olhou-me com fome
Quis me mastigar
E de fome tamanha
Me carcome
Com seu olhar
Ai, que moça estranha
Não sei se está despida
Ou se dorme distraída
E anda pelada
Desfilando a alma imaculada
Funesto conveniente
Engano o mundo tolo com versos fracos
Finjo o amor bobo com versos falsos
Cedo à poesia chula com versos comuns
Rimo o óbvio previsível com versos ralos
Versos sem obrigação
Ruins
Naives
Imaturos
Assinados pelo coração
Facínora
O mundo começa agora, a cada nascer
O Sol traz então a esperança
À imensa dor dos homens
Que nascem para morrer
O passado agora guia
Os passos dos fracos
A lembrança novamente os prende
Ao futuro fracasso
O que sei é tão certo
Sei no que acredito
Sei meu desejo incerto
Sei que não sei saber
Nem eu ou ele
Que não sabe ser, existe ao ter
Mas o que têm é tão pouco,
É vital ter mais
É pouco querer o mundo
Nada nunca é demais
Ele têm o ouro que roubou dum corpo nu
Tem o crer tolo de que os homens cabem a um
Roubou e molestou
O que restava da humanidade
Cuspiu e estuprou
O que um dia foi liberdade
E Criou
O Certo que condenou
A Moral que difamou
A Preguiça que suicidou
A Verdade que enganou
O Poder que enlouqueceu
Levando-nos a esquecer
Do que um dia foi viver
Do que pensávamos saber
Do que agora jaz sobre nossos pés
Preso, ignorado
Corrompido, odiado,
Queimado com outros infiéis
E nós aqui sentados
No ócio sendo igualmente enterrados.
Mata de Algas
O mar lavou o homem
Levou o concreto, trouxe a vida
Caótico, matou o homem
Levou a alegria destemida
Esse céu distorceu a fúria
De um mundo insano,
Que por cretina injúria
Varreu Éden por engano
Agora as estrelas se escondem sob o mar
O céu embaçado ondula
Me escondo com o tímido Luar
Que sem poder, me bajula
E as sombras me cobrem
As constelações me acompanham
Penso no que não vi, elas descobrem
E com consolo me banham
Voando, encontro um espelho
Colossal, nele encontrei as estrelas
Corri, não pude contê-las
Desolada, me perdi; o perdi.
Junto ao luar, o álcool na cabeça
O mar ao alto, sobre o céu caminho
Nada tenho em mãos senão um copo de crença
Nele o rosto que não vi, o que perdi e engulo com vinho
Solidão poética
O medo devora minhas entranhas
A dúvida corrói minha mente
Agora que o público está ciente
Do que passa em meu viver
Nua, diante do mundo
Ruborizo, frente à descoberta
Agora minh’alma desperta
Ao sorrir com este encontro mudo
Nua, despida pela coincidência
Sorrio, sem saber se devo
Agora anseio a vivência
Para matar este falso medo
O poeta nem sempre é o ser
A decepção tão mais provável
Que o improvável fato de nos amarmos
Em carne, não em saber
Iluminação
O pecado, o desejo
Enfrentam o indesejável inevitável
Destroem meu corpo
e alimentam meu viver
O desconhecido me espera
Como havia de fazer
Por que temer agora
Quando tudo já havia de ser?
Quero conhece-la, a tal da Morte
Pois se não a temo,
é por amar viver.
Porque quem diria,
Um dia irei morrer.
Cardíaco
O sol, sem saber, me saluta
Me manda mais outra morte
Carece-me com calma caduca
Pede certa paz de pequeno porte
Tantos tempos tortos
Passaram por minha pobre alma
E agora, dizem mortos
Que padeço em doce calma
O pecado que com orgulho engulo
Agora deu-se a estrangular-me
Traidor, importuno!
Venha logo levar-me
Pois minhas armas aqui estão
O medo jaz há tempos
De vida morreu meu coração
Mas resistirei a estes tormentos
Que venha a Morte me levar
Quero testar a coragem da Vida
Quero vê-la com paixão enfrentar
Para que não seja vista minha alma vencida.
Mais de dois milênios confirmam
Divirta-se com a ilusória dor alheia,
Pois uma única realidade não é o bastante para o ser humano.
O falso
Do amor fizeram um vício
Com sagacidade o estriparam
Até não sobrar nem um indício
De que amar não é o que falam
Pois o amor que carrega um olhar
Nos prende à ilusória eternidade
Pois quando o natural é por todos se apaixonar
Nos culpamos por viver com naturalidade
O amor não é por unidade
Então quando me entregar por amar
À carne falecida e oca
As lágrimas que inundarão meu olhar
Serão de uma felicidade louca
Quando me entregar sem hesitar
Aos olhos que me seduzirem de verdade
Provarei ao mundo que ao me revoltar
Aprendi a viver da pura felicidade
Esperarei pela paixão
Errando e sorrindo
Aprendemos a canção
Não nos importando e rindo
Na cara da razão
Esqueça-se do não, do certo travestido,
Da opressão por nós sustentada
Libere de seu coração enjaulado e reprimido
Toda a repressão infundada
Esteja exatamente onde você quer estar
Errado é o homem que pretende acertar
Não faça nada,
Não deixe com que o nada faça
Espere o mundo ir novamente ao seu encontro
Tirar seu chapéu e sorrir com graça,
Cantarolar a vitória do desejo irracional
E ensinar a viver sem saber, amar sem querer, errar sem poder
A degustar da eterna solidão
Apaixonar-se pelo estranho mortal
E falecer com o mundo nas mãos
Canalizando a energia criadora
Num dia, um outro alguém me confessou:
“Tudo que é sólido desmancha no ar.”
Percebi então o quão sólida será a tua dor.
Tears of my Love
Hello kid
Do you need some make-up
To fake this world?
Why would you wake up
When all you have is in your dreams?
Hey girl,
Would you turn the lights off?
Would you change the bright of your eyes
And forget these diamond skies?
Hey Lucy, where are your sugar smiles?
Did they drown in the brown of your eyes?
Did it feel so good fooling your mind,
Being part of this sweet lie?
O child, please
Don’t go now
It’s so soon, the dawn is far
The sun won’t let you fall
Won’t let you fight your hearts war
So get your weapons now
Gather your dreams and hopes
Forget the ilusions and strokes
And dive in my reality
Then dry your tears, love
Dream your dreams, girl
And accept your fate
You’re meant to stay!
Doubt
Ain’t the joker gonna catch me when I fall?
Mother should I trust government?
Should I go with the crowd?
‘Cause that aint what I have ever meant
Oh mother, what are you looking at?
Ain’t the telephone gonna tell my friends?
I’ve never dreamed of feeling that
I never thought there were other ends
Oh, mother
Aren’t you gonna teach me how to lie?
Aren’t you gonna teach me to nevermind?
Oh, mother
Won’t you fight this war?
Oh, mother, oh mother
Just please, tell me why
Falta de saber
Encontrei-me no vício
Ao roer minhas unhas e anotar
Mentir num papel nulo ofício
Fingir cumprir tarefas a ignorar
Com a culpa não me entreguei
Permaneci no vazio fútil
Sem ação, me preocupei
E com o tempo realizei o inútil
Minha agenda lotada,
Sabia o que fazer desde o início
Vendo minha letra, noto apavorada
Esqueci-me de anotar o por que de tudo isso
Lúgubre fim de uma decisão Ditosa
Era um garoto um tanto sumido
Invisivelmente distraído em seu saber
Padecia numa intensa libido
Evidenciada pelo desejo de viver
Certo dia, por um impulso enfermo
Decidiu cantar num rio de lâminas
Provando do gélido inferno
De sua cálida razão lânguida
O líquido que abraçava seu corpo
Cobria-o de nobre ilusão
Afogando-o num sonho absorto
De literatura e sedução
Enfim aceitando a arte da ignorância
Não vendo a falência ou o apogeu
Sem sucesso cantou sua infância
E ao engolir as próprias palavras faleceu.
Colóquio Insano
Agora no silêncio da noite
Senti a brisa fresca tocar
Senti em minha boca o pecado
Lembrei-me de outras noites ao luar
Esqueci-me dos machucados
Deixei o vento levar
Hoje meus olhos sorriram
Por motivo algum quis dançar
Senti em meu peito o pecado
No vento meus sonhos fugiram
E agora estou a voar
Uma bebida num copo com gelo,
Nessa dança, quero amar
Amar o belo o feio, o elo
Amar sem saber blefar
Nada mais importa, vou fugir ao luar
Nada nunca importa, vou me permitir sonhar
Nessa noite de liberdade, quero ver a morte me levar.
Sua mente não quer dormir
Já não sabe mais o que fazer
Quer mudar, quer sentir
Qualquer coisa que dê-lhe prazer
Seu coração quebrado já não quer mais fugir
Já não tens mais do que beber
Quer chorar, quer sorrir
E toda a razão esquecer
As águas que escorrem de sua alma
Já secaram o que restava de sua esperança
Não há mais nada além da falha calma
E duma inútil ânsia
Fala que me ama, mas destrói o meu viver
Me leva pra cama, mas não é infinito o prazer
Promete o mundo, mas dá um beijo sórdido
Reclama do vivido, mas continua no sonho mórbido
Ora, vire e quebre a dança
Rebole logo, criança!
Quando seus olhos negarem perdão
Lembre-se do gim que tens na mão
E engula o mundo com saber
Veja no espelho o que promete seu ser
Ria com os amores que dão-lhe satisfação
Beba com eles da verdadeira paixão
Dê-me logo sua mão, criança
Venha comigo, nesta ilusão da infância
Lembre-se da simplicidade da vida
Viva a felicidade em ti inibida
Viva agora a beleza do viver!
E esqueça logo a agonia de em vão sofrer
Não há beleza no viver, cara amiga
Quando se trata de um amor insolúvel
Então misture-o em álcool peçonhento
E beba doutro vinho de puro contento
Agora pare logo de pestanejar
E venha comigo amar
A Morte e a Desilusão
Seus pesadelos a guiam à realidade, a dor que sente transforma-se em fatalidade, o amor que preenchia parece nunca ter estado, o real fatiga sua mente, a razão implica no desconhecido, a amargura leva ao riso, o sorrir traz o desespero de não saber, o que a cerca já não importa, todo o resto cansa, ela se cansa; a imagem que reflete, os olhos que mentem, as pálpebras que adoecem, o sorrir que jaz ali, a felicidade que ainda está por vir.
E tudo pesa, pesa. Mesmo cercada, o mundo traz a Solidão. Ela a cumprimenta. Ela diz que trouxe uma amiga. Diga olá à Morte.
A menina pergunta o que vem depois, a Morte não sabe dizer, “Meu trabalho restringe-se a levar, nunca buscar, nunca continuar. E eventualmente, salvar.”.
Novamente, o Tempo, que corre devagar, que busca os últimos minutos, segundos. Ela não responde. Salvar, repete. Dor, incoerência, uma possível fuga daquela realidade imunda.
Pergunta a razão de as pessoas se reduzirem a um pedaço de carne esquecido. “Elas sempre o foram.” Pergunta como uma carne pode amar. “Por que ela não visa a morte.”.
Pausa, fluxo de pensamentos, dúvida, dor, desejo de salvação.
“Você não quer morrer, minha cara.”
A Morte surpreende a garota.
“Está claro em seus olhos o desejo de vida. Eu sei. Já vi tantos cansados, desiludidos, fracos. Tantos com o amor ainda guardado no peito, sem saber ao certo porque iam e não ficavam. Eles pediam a morte, não a visavam. Eu fui, a pedido, não a vontade. Eu vim, a pedido, não a necessidade. A procura pelo real já é um velho clichê, minha cara, a fuga da pútrida realidade é um luxo de poucos. Inventaram o Inferno para que existisse um Paraíso, para que as pessoas tivessem o mínimo ânimo para viver seguindo as regras, os princípios, os valores. Já vi a ordem, há muito tempo. Natural, animal. Mas não existia o Amor, este é um novo valor. Tornou desnecessário o Paraíso, substituiu a dor, o sofrimento, a solidão. Ah, quantos não se sentem sós, no meio da multidão, perdidos, desiludidos. Ninguém pensa mais, vocês são ensinados a fazê-lo, e quando finalmente conseguem, desistem ao verem o mundo com olhos lúcidos, quando a desilusão é muito maior que o padrão de felicidade. Quem disse que é preciso estudar, pagar, gastar, comprar, vender, dar, casar, procriar, respeitar, considerar, compartilhar? Vocês. Quer dizer, alguns de vocês que pensaram, e ao não desistirem, procuraram soluções para a tragédia que viam. Você enxerga, minha cara. Você sabe, e você desiste, mesmo sem ter a razão. Diga-me a razão.”
Ela responde sem hesitar. Sua razão óbvia era a dor.
“Dor? De onde?”
“Não sei. Mas não consigo aguentar.”
“Abra os olhos então. Você pensou, está certo, mas não viu. Abra os olhos da mente, enxergue os espectros do amor que te seguem. Assista a dança do mundo em agitada harmonia. Tudo errado. Mas você está certa. Assista os problemas, o abandono, a falta, o excesso. Assista o amor, o céu, o mar, aquela casinha amarela, aqueles sorrisos sinceros. Veja o SEU sorriso sincero. Ele ainda está lá, não é? Você ainda está lá, minha cara. E lá ficará.
Não vou te levar. O mundo precisa de você.”
A Morte a cumprimentou, não com um aceno, não com um aperto de mão- mas com uma reverência.
Simples, feio e sincero.
por que essa pose tão rígida
essa paz tão distraída
numa doçura frígida
doutra figura recaída?
o que fizeram, garota
para teu rosto ter essa exatidão?
para onde levaram a menina marota
de suave canto e louco riso?
roubaram teus sonhos,
ou os cumpriram em excesso?
solte-se, garota de manhos
e abrace a infância em protesto!
afinal você já ganhou, querida
já alcançou a vitória
saiu do sertão, esquecida
bebeu do vinho da glória
então pra que se embebedar?
afogar-se na perfeição?
já tens do que se orgulhar,
então tire já os seu pés do chão!
Retratos
De minha mente ácida vazou o pecado
Meus lábios dopados golfaram a traição
Agora meu coração busca a ternura
Donde só prevalece a decepção
Quem ditará as regras dos erros
Quando todos já foram condenados?
Quem há de restar por entre os puros,
Os falsos, mórbidos, dilacerados?
Quem dirá que existe um Deus
Quando o homem já o destruiu?
Quem acreditará no Paraíso
Quando o pecado já o conquistou?
A consciência nos leva à loucura
Com seus doces suspiros, insana amargura
A culpa nos leva à afirmação
De que todo esse nojo humano, é nossa invenção
Minha obra, devo dizer
É tão bela quanto a sua
Pintamos unidos, numa linda orgia
De pecados, erros e regalias
Minha obra, ouvi dizer
Já não é a do saber
A perdi. Há tempos.
Já não sou mais o mesmo ser.
Minha obra, há muito quis dizer
Não era nada constante, se quer saber
A tive num dia, mudei noutro.
Sem nexo, sem fluxo. Louco.
Se têm uma obra, deve dizer
Diga ao mundo, ele deve saber
Ignore seu pecado. Já está condenado.
Abrace o desconhecido. Viva o esquecido.
Eu me fui. Já fui. Não sei mais.
Dos meus erros nasce o Jamais.
Arejando a alma culposa
Pra que buscar o sentido? Haha, rio na cara do motivo.
Esqueça, tire a lógica de sua cabeça!
Revolte-se!
E agora, rimar? Quem disse que pra isso é preciso amar?
Busquei quem sou, quem era, quem serei. Não importa mais, nem sei o que é “ser”.
Revoltei-me. Não me importo com um poema ruim. Foi só um dia ruim. Um desabafo.
Encontro com o Vazio
Seguindo minha sombra, ouvindo meu passo
Hoje vi tão claro o descompasso
Da massa cruzando a avenida
Nas infinitas faces, uma distraída
Tinha um andar de doce calma
Um olhar fechado para pura alma
Um belo gingado tão recaído
Tinha o falso amor em si escondido
Devaneava em fluxo lento
Seu Tempo ignorava um outro advento
Padecia de um sóbrio vazio
Mergulhava num ermo frio
Olhava para os lados, sem ver
Cruzava o mundo sem saber
Indagava a dor que lhe pesava
Caía com o sonho que carregava
Menina linda, de vaga paixão
Fechava os olhos, mexia na ilusão
Garota lasciva, dançava no remorso
Lápis na mão, vadiava no ócio
Mulher criadora, fazia mundos com o olhar
Desiludindo o seu próprio, fingia amar
Criança inocente, de punhos fechados
Tiranizava com ódio os minutos passados
Era uma musa a prantear,
Num baile tão perfeito, devagar
Seus passos flutuavam calmos, sem defeito
Me levaram à outro plano, nunca feito
E num momento logo me vejo
Admirando a figura com desejo
Ela percebe, e logo pára
Sai de sua ilusão e me encara
Seu nome pergunta à Rosa,
Sem Tempo, temo tenebrosa
Corro o olhar, vejo sua face de amor
Vomitando palavras, digo que vejo a dor
Pudibunda, vario a palavra:
“A dor que vejo em seus olhos, não passa de uma cilada,
O que vejo vai além da compreensão
De um mero ser humano,
Vagueia na imaginação
De seu doce olhar tirano.”
Mas a menina, insatisfeita, roga iluminação
Suplica de joelhos por minha suja razão
Agradando-a então, minto:
“Diria que o que vejo é o amor
Da jovem que ama a dor.”
E ela se foi.
Perdida noutra multidão, preenchida pelo vazio, amante da solidão.
Letras quinhoadas
1-A poesia mantém meu ser vivo
Das palavras, me alimento
Ao pensar já nem suspiro
Esse mundo é meu sustento
2-A poesia está em mim
Como eu estou em você
Numa paixão sem fim
Da carne e do saber
1-O saber que não se sabe
E de imaginar, me cansa
Não almejo a verdade
Sou ritmada pela dança
2-E nessa dança da ilusão
Tropeço na ignorância
Pelos erros da razão
Mergulhada em pura ânsia
1-Caminho nas horas do tempo
Anseio enojada a palavra
Da realidade pútrida me ausento
Me liberto dessa fala amargurada!
2-Tiro de mim as correntes do amor
Afasto de minh’alma a tortura
Livro-me dos dias de doce dor
Nos quais perdi-me em tua ternura
2-E nestas palavras dispersas
Perdidas, desprevenidas
Sinto minhas entranhas inversas
E minhas mãos iludidas
2-Por você, minha amada
Permuto por estradas invisíveis
Palavras de amor em serenada
Para dizer simples: somos invencíveis
Por Carol e Cora
Noites de amargura
Os erros de minha vida
Restam como se nunca houvessem passado
Como lembranças de uma amarga bebida
Que virei num dia manguaçado
Lá se foi um, dali veio outro
Pareciam saltitar num passo errado
Girando, e berrando num jogo
De arrependimentos e medo calado
Mas às vezes sinto em minhas costas
Um punhal encravado
Vejo no dia seguinte as derrotas
De um passo desordenado
Atravesso a rua, minha rua
E olho para os lados
Vejo minha face nua
Coberta por sonhos renegados
Entro numa casa, não a minha
E percebo com surpresa o desespero
Ao ver em cima duma mesinha
Meu coração exposto sem esmero
Caio, como era pra ser
Despenco dum céu azul
Flutuo sem saber o que fazer
Sabia que não iria a lugar algum
Mas com surpresa me espatifo
Como leite derramado
Morro assim, como que com tifo
Sem nunca nem ter amado
Então agora, pergunto procê:
Se o sonho fosse tão ruim,
Você insitiria em viver?
As rosas
Veja o contentamento
Daqueles homens helênicos
Ria do consentimento
Das novas crianças efêmeras
Guie-se pelo profano,
Divino princípio
Goze com o dualismo insano
Desse real mundo mancípio
Procure pela ideal salvação
Longe desta perfeita desgraça
Mas cuidado com a contradição
Do doce pecado contra a falha graça
Olhe só, como é admirável a sociedade
o Homem, uma unidade distinta
Mamando no seio da universalidade
Enganando-se com uma liberdade extinta
E as crianças de razão ilimitada
Que crescem com os olhos do saber
Mas logo caem na pútrida cilada
Da cristã concepção do ser
Olhe só, a fragilidade da verdade
Encravada em nossos corações perdidos
Enganando-nos com falsa liberdade
Determinada por princípios inibidos
E a espetacularização da imagem
Brotando como uma rosa a difamar
Diante de nossas mentes sem coragem
Que já não enxergam com o olhar
Veja o descontentamento
De você, moribundo animal a viver
E adote o louvável sentimento
De que nada é o que parece ser
Mergulhe na correnteza da perdição
Perceba logo o que sua vida inibiu
E flutue na irascível maré da ilusão
Mas entenda agora: a razão nunca existiu.
Vamos fazer Amor com Pecado?
Libere de meus sonhos sórdidos
Esses gritos de aflição
Afaste de mim estes olhos
Que sangram traição
Por que tens mãos torpes?
E infinitas, obscenas?
Mirais meus olhos disformes
Vês uma velha mecenas?
Esgote meus mofinos lamentos
Que tormentam meu corpo devasso
Esqueça daqueles ditosos momentos
De cunho tão escasso
Por que tens essa cegueira?
Esse doce canto doloso?
Vês que não me encontro inteira?
Não enxergas este ódio fogoso?
Afaste dessa alma teus lábios
Libere-me deste cárcere
Preencha-me de versos sábios
Tire-me deste insano mármore!
Não amarei mais tuas palavras impuras
Sujas de perfídia perversidade
Esquecerei desta vida a amargura
Fugirei com louvável sagacidade
Renegarei então essa morbidez dilatada
Existirei em tão bela harmonia
Numa supérflua brisa emancipada
Flutuarei na Nona Sinfonia
Para você, amiga querida. Espero ter traduzido corretamente seus sentimentos.
Conclusões dispersas
Me sinto perdida,
Absorta nas incertezas da juventude
Afogada nas certezas inibidas
Pela rotineira falta de atitude
Me falta inspiração,
Nesse emaranhado de devaneios
Não consigo a mínima alucinação
Para acalmar meus contínuos anseios
Me sinto escusada,
Minha mente sonha com um futuro de saber
Vivendo fora do consenso
De que somos o que aparentamos ser
Me sinto exata,
Há tempos fugi dessa moda pacata
Ao descobrir que a razão não passa de uma ilusão
E que essa vida é só fruto de minha fértil imaginação…
Me sinto encontrada,
Meio à esse torto espírito
Entrei num transe lírico
Ao descobrir que a razão é uma cilada.
Me sinto assim,
Num vazio errôneo
De delírios sem fim
Nesse mundo antagônico.
Adormecendo demônios
Vá às nuvens criança
Durma logo, que o sol já vêm
Ande, sonhe com a dança
Dos anjos inexistentes do além
O manto de estrelas já cobriu a luz
Durma, durma! Que amanhã logo aparece
A manhã já, já produz
O mais belo sonho da jeunesse.
Carolina
Carolina, venha comigo
Que o tempo é fugaz
Venha, num futuro contido
De paixão e nada mais
Oh Carolina, dê-me teu amor
Vamos separá-lo até não existir mais dor
Cortá-lo em partes iguais
Para tornarmos imortais
Dê-me teus sonhos então
Vamos deixar com que sejam uma velha ilusão
Vamos transformá-los em realidade
Apenas parte de nossa bela insanidade
Carolina, maestra da rima
Como teu canto me alucina!
Carolina, é brilhante tua sinfonia
Vamos logo para cervejaria!
Menina de admirável temeridade
Garota, quem se importa com a idade
Quando tua mente supera a perfeição?
Quando teus olhos transbordam a razão?
Carolina, é venenosa tua doce pureza
Como é louca tua incrível beleza
Carolina enfeitiçou minha mente
Tirou-me dessa realidade delinquente
Não chore, Carolina
Pelo canto de teu coração
Não perca esse mundo que te ilumina
De tão clara e bela paixão
Cante para a vida, Carolina!
Veja como é perfeito teu ser
Entregue-se à essa linda harmonia
Que te cobre de poesia e de saber
Menina, você veio de um mundo
Repleto de desvarios e ilusões
Vêm de um passado imundo
Castigado por arrependimentos e traições
Mulher de perfeição inibida
Rara poetisa, possui o dom da arte
Rainha contida,
Não ligue para o mal que já parte
Carolina, venha comigo
É em teu mundo que posso viver
Venha, num sonho contido
De poesia e de saber.
Vêm, o trem parte ao amanhecer
Vêm, sem você não sei ser
Vêm, já está na hora
Mas sem você não vou embora.
Verdade de quem?
Assinarei um papel imaginário
Firmarei um acordo sanguinário
Com uma comum absurdidade:
A errônea e falsa verdade
Esta fora criada há tempos
Quando por incontáveis adventos
O homem dispôs-se a crer
Que sua mente era a fonte eterna do saber
E com essa precisa certeza
Uniram-se os homens de cada nação
Que com admirável braveza
Sacrificaram outras vidas por uma ilusória razão
E com esse conceito em comum
Surgiram determinadas divindades
Que por asco ao incomum
Isolaram-se em suas próprias realidades
Formaram-se então as classes sociais
O senhor feudal virou aristocrata
O proletário permaneceu em condições anais
E somos nós o fruto de uma raça sociopata
Mas como um certo sábio diria
Somos nós o futuro do mundo
Estriparemos então a tirania
Dilaceraremos esse passado imundo!
Esqueçamos portanto essa moral burguesa
Essa podridão hipócrita
Gerada pela porra da incerteza
De nossa Nação Incógnita
Vamos à luta, príncipes da mudança,
Subverter essas mentes fétidas!
Uivemos o canto da esperança,
Acabemos enfim com as verdades pérfidas!
Curto lembrete
Vamos à luta, príncipes da palavra,
Subverter essas mentes pérfidas!
Sonhos de revolução mental
Estro; insuflação divina; veia poética; entusiasmo artístico;
Inspiração.
Congeminação?
Poesia. O que é poesia? Não cabe a mim decidir se o que vou publicar é poético, se palavras confusas de uma adolescente podem ser classificadas como poesia. Mas, quem somos nos para dizer se todos os sentimentos que vêm à mente, se a organização da inspiração, a descrição de uma emoção, se tudo aquilo que vem do coração é ou não digno de ser poético? Inspiração é poesia, arte é poesia, pensar é a arte de poetizar. Somos todos poetas, cada um na sua propria maneira de rimar.
Hoje decidi dar uma lida nos poemas que escrevi ja faz algum tempo, e percebi que os versos foram a melhor maneira de alindar a dor, de transformar negro em arco-íris, de fazer da solidão uma virtude. Vou publicar alguns poucos versos tolos, para que outros olhos senão os meus possam criticá-los.
Dor
Não chore menina, o tempo passa
A língua logo se solta
E o mundo volta a girar
Não baixe os olhos criança, a dor passa
A felicidade logo volta
E você se lembrará de como é amar
Não caia na peça que sua mente pregou
Sorria e esqueça que o tempo não passou
Se levante desse leito e vá amar,
Voe alto pelo céu azul
Aceite a paixão que pede um olhar,
E viva por motivo algum
Então venha mulher, vamos festejar!
Pois o que a vida nos deu ninguém pode tirar
Venha comigo, vamos sorrir!
Esquecer do que um dia fomos e de nossa mente fugir
Vamos viver pelo coração!
Vamos viver da paixão, vamos matar a solidão!
Não nos importa se a ilusão nos engana
Vamos pular as semanas!
Venha comigo, vamos guerrear,
Tomar o que não querem nos dar
Viva comigo, não vamos nunca sofrer,
Ame comigo, vamos para sempre viver!
14/09/07
Ilusão libertina
Meus versos são pobres, minhas rimas se repetem
As palavras não sabem onde se metem
Sou ainda criança, pouco vivi
Quem dirá que não sou poetisa se nada vi?
Amei, sofri, algo provei
Nada suficiente para florescer minha mente
Não sou diferente mas aprenderei a pensar
Logo tomarei dessa vida o que rimar
Quero de Vinicios o ardor, com Orphée viver seu amor
Vou rimar com Andrade, com Camões cruzar os mares da idade
Quero com Mozart tocar, de Shakespeare aplausos ganhar
Aprenderei com Dante, verei a platéia delirante
Que dessa criança virá uma mulher
Que dessa dança calma virá a maré
Não existe na mente perfeição
Não creio na crua razão
Sou livre, sou livre!
Meu ato é domado, meu sonho é ousado
Mas o que é a sociedade quando minha alma é liberdade?
05/10/07
Entusiasmo lírico
Riscos formam sonhos vistos em ilusão
Nessa congeminação, tornado tão futil o real
Tão esperado, nesse plano anal
As linhas criam liberdade
Fazem de minha lira minha idade
Com elas vou fugir e levar a arte em minha mente
Nesse ermo vou voar livremente
Vou tão simples criar a perfeição
Criar e amar apenas com a dança de minha mão
Hello world!
Welcome to WordPress.com. This is your first post. Edit or delete it and start blogging!
C’est quoi?
Pour quelque raison
Un enfant a rit.
Daria tanto para ver com os olhos dessa criança
Ver as pessoas sorrindo fazendo passos de dança
Ver o mundo urrando em êxtase com um orgasmo
Ver a Natureza agradecendo com entusiasmo
Ver ao menos a mínima coerência
Em toda e qualquer existência
De nosso louvado Homem.
Mas a Razão
Com sua língua de açúcar confessou:
Mon amour, tu n’est plus qu’un morceau
D’une tarte pourri.
Hahaha
Nossas frívolas vidas
Todo homem anseia
Todo poeta devaneia
Toda criança inventa a dor
Para obter um admirador.
Arranja-se um emprego,
Ganha-se dinheiro,
Foge-se do diabo,
Para contemplar o resultado.
A velha moribunda
Em seu leito de morte pergunta:
Meu filho, tens orgulho do que tenho?
E este responde sem empenho:
O que tens, não consigo ver.
E a mulher diz sem se conter:
Mas o que sou, diga-me sem pudor!
Então o filho desiste:
Minha velha, o espelho é teu único admirador.
A velha lutou mas a morte veio
e
Ninguém aplaudiu seu desempenho.
Cuspindo tua peçonha
A pouco pretendi esquecer
Deixei minha mente cair
Deixei meu corpo te perder
Fiz a amargura enfim escapulir
Toco agora a liberdade
Amo agora a realização
Conheço então a verdade
Mas por que duvida o meu coração?
Diga-me que estou certa
Engane-me com teus lábios
Limpe a ilusão que vaza incerta
Ajude-me nesses atos falhos
Por que desavenho?
Me diga a razão para tamanha dúvida!
Não acredito, mas despenco
Do mais alto pico da mente lúrida
E parecia-me tão exata
Essa certeza tão incerta
Parece-me então tão errada
Essa tristeza coberta
E outros espectros dançam
Num baile estouvado
E essas vozes cantam
Penetram em meu coração dilacerado
Logo percebo o que já havia cometido
Que horror, não me ensinaram a gostar
Não gosto do que não amo, não gosto do já vivido
Não gosto do som da palavra entregar
E entreguei-me a você
Entreguei-me ao meu tresvario
Entreguei-me sem poder, à tua mercê
Entreguei-me a um beijo vadio
E assim entregando-me percebi
Que na ciranda da paixão
Não vale mais mentir
Só vale abrir mão.



